sábado, 28 de junho de 2008

Guantánamo: O inferno é aqui

Publicado no Estado de São Paulo.

'Em Guantánamo, fui torturado e tratado como animal', diz ex-preso

Jornalista sudanês Sami al-Hajj relata ao 'Estado' como foram os 6 anos em que esteve preso na base americana Jamil Chade

Preso 345. Assim o sudanês Sami al-Hajj era identificado durante os seis anos em que esteve detido na prisão da base americana de Guantánamo, criada pelo governo dos EUA para deter suspeitos de vínculos com o terrorismo. Em 1º de maio, ele foi libertado do mesmo modo como havia sido detido: sem nenhuma condenação praticamente nenhuma explicação.
Em entrevista ao Estado, concedida ontem durante sua passagem por Genebra, Al-Hajj relatou que os EUA só não o soltaram antes porque ele recusou uma oferta da Casa Branca: a de transformar-se em agente secreto da CIA infiltrado na Al-Jazira, a rede de TV do Catar para a qual o sudanês trabalhava como jornalista antes de ser preso. “Fui tratado como um animal”, disse.
Al-Hajj foi preso em dezembro de 2001 no Paquistão e, em seguida, enviado a Guantánamo. Segundo ele, seus editores na Al-Jazira o haviam enviado para o Afeganistão para entrevistar líderes do Taleban. Segundo seus carcereiros, ele era suspeito de editar um site que apoiava o terrorismo, de tráfico de armas e mísseis para chechenos e de contatos com milicianos do Taleban e da Al-Qaeda.

PRISÃO

Em sua defesa, o sudanês confirmou que transportou dinheiro entre os Emirados Árabes e o Cáucaso, entre 1996 e 2000, mas alega que, na época, trabalhava para uma empresa de bebidas, a Union Beverage Company. O dinheiro, segundo ele, era para “pagamento de contratos”. Al-Hajj nega que tenha simpatia por algum grupo terrorista.
Em abril de 2000, ele se tornou jornalista da Al-Jazira em Doha. Como tinha contatos na Chechênia, acabou concentrando parte de seu trabalho nos conflitos na região separatista russa. “Com a possibilidade de um ataque contra o Afeganistão, a partir de 11 de setembro de 2001, fomos orientados a nos concentrar nos assuntos de Cabul”, explicou.
Numa de suas primeiras viagens ao Afeganistão, porém, acabou preso pelos americanos. “Levaram meses para que me dissessem por que eu estava preso. Não sabia exatamente onde estava”, afirmou. “Até que, em 2002, fui surpreendido com essa proposta.”
Al-Hajj afirma que o acordo era simples. Ele seria solto imediatamente, indenizado e voltaria a trabalhar na Al-Jazira. Em troca, passaria todas as informações sobre a rede de TV aos americanos.
“Queriam que eu me tornasse um espião da CIA, fornecendo todos os dados sobre quem era cada pessoa na emissora, como as pautas eram definidas, qual era a orientação dada a cada jornalista”, explicou.
“Uma das coisas que os americanos mais queriam saber era como as fitas com os vídeos de Osama bin Laden chegavam até nós. Quem nos entregava, quem buscava e onde isso era feito. Queriam saber tudo sobre a relação da TV com o terrorismo. Eu não aceitei.”
Em razão de sua recusa, Al-Hajj foi abandonado pelos militares americanos na prisão de Guantánamo por mais seis anos. “Fui torturado em Guantánamo. Várias vezes e de diversas formas, incluindo em minhas partes íntimas”, afirmou o sudanês, que carrega as cicatrizes de vários golpes no rosto.

PRIVAÇÃO DE SONO

“Freqüentemente, os militares americanos não nos deixavam dormir. Cada um sobrevivia como dava. Eu e vários outros não estávamos autorizados a ler livros. Alguns não podiam nem mesmo conversar com os demais detentos.”
Al-Hajj afirma que não soube de nenhum brasileiro na prisão. “Mas conheci um argentino. Ele vivia no Oriente Médio, mas tinha nascido na Argentina e toda a sua família ainda morava lá”, disse.
Segundo ele, os militares tinham o hábito de forçar os detentos a ver cópias do Alcorão sendo colocadas em vasos sanitários.
O pior, de acordo com Al-Hajj, teria sido a falta de informação sobre o que ocorria no mundo. “Fiquei um ano sem saber de nenhuma notícias sobre minha família. Essa foi a parte mais desesperadora. Tinha um filho de 1 ano. Quando voltei, ele já tinha 8 e nem sabia quem eu era.”
“Parte da tortura psicológica envolvia a pressão. Fui interrogado 137 vezes, pelas minhas contas”, disse. “A maioria, porém, não era interrogatório de verdade. Eram apenas sessões de ofensas, gritos e ameaças”, afirmou o jornalista.
Al-Hajj caminha com dificuldade e tenta recuperar-se da experiência. Ele chegou a perder a voz e hoje fala quase sussurrando. “Acho que foi a angústia”, disse.

GREVE

Em janeiro de 2007, para protestar, Al-Hajj decidiu entrar em greve de fome. “Eu apelava para que os prisioneiros tivessem a liberdade de praticar sua religião, que fôssemos tratados de forma digna. Queria que os processos contra nós passassem a existir de fato ou que fôssemos soltos de vez.”
Foram 480 dias de greve de fome até que Al-Hajj foi solto, sem receber nenhuma explicação e com a metade de seu peso normal. “Era alimentado à força. Todos os dias, amarravam-me e colocavam tubos pelo meu nariz para que eu me alimentasse. Sangrei várias vezes e foi uma verdadeira tortura.”
No dia 1º de maio, Al-Hajj foi levado para um avião e, sem saber, transportado para o Sudão. Lá, acabou libertado ainda no aeroporto. “Agora, quero voltar a trabalhar como jornalista. No entanto, acredito que preciso fazer mais do que isso. Preciso ser um ativista pelos direitos humanos. Sei que, sem as ONGs, eu nunca teria sido libertado.”
A Anistia Internacional, os Repórteres Sem Fronteira e outras organizações de defesa dos direitos humanos fizeram constantes apelos pela libertação do sudanês.
“Al-Hajj foi mantido preso por ser jornalista. Eles queriam usá-lo como espião da rede de TV em que trabalhava”, afirmaram os Repórteres Sem Fronteira, em nota divulgada no dia de sua libertação.

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