domingo, 8 de junho de 2008

Não me peça para fazer de graça o que eu faço para ter o que comer!


Nas duas últimas semanas, em razão de um trabalho, tive de fazer pequenas "viagens" a uma cidade próxima de São Paulo.
Alguem já tentou conseguir uma CND (Certidão Negativa de Débitos)? No dia em que você, ou sua empresa precisar, você será apresentado à toda a burocracia governamental brasileira; colocará em prática o famoso "jeitinho brasileiro" e, quiçá, será sutilmente asseadiado para "facilitar" o trâmite da expedição deste documento (leia-se "propina", "caixinha", "corrupção").

Terça-feira, embarco no táxi parado em frente ao escritório.
- Fórum de Cotia, por favor.
Logo após o "sim", o taxista indaga:
- O senhor é advogado?
Nessas horas qualquer estagiário cresce, engrossa a voz, arruma a gravata e se vende não só como advogado, mas como sócio da banca.
- Sou sim.
Pra que.... Recebo uma avalanche de perguntas.
- O que o senhor vai fazer lá? Que processo é esse? Empresa grande?

Eu, todo nervoso, prestes a despachar com um juiz, tentando organizar na minha cabeça os argumentos que usaria para convencê-lo a emitir um ofício atestando que as dívidas da empresa estavam garantidas (e assim, tentar conseguir a CND) e o taxista não parava de falar... Fiquei pensando nessa classe. Existem os chatos, os legais, os reservados, os curiosos. Profissão interessante esta....devem conhecer cada louco todo dia... A propósito, sugiro a leitura do blog TAXITRAMAS (http://www.taxitramas.blogger.com.br/).

Quarta-feira, embarco novamente em outro táxi parado no ponto em frente ao escritório.
- Cotia, por favor.
- O senhor é advogado?
- Sim.
Pra que....De mero passageiro passo a consultor jurídico. Lado ruim: gratuito! Lado péssimo: na maior parte das vezes em que você se apresenta como advogado, as perguntas que lhe serão dirigidas se referem a duas esfera do Direito: Cível e Trabalhista. Dois ramos que eu não domino, não aprecio e não estudo. Jamais você será indagado sobre Direito Constitucional, Administrativo ou Tributário (os mais legais, lógico! rsrsrs).

Passei a refletir sobre as profissões e a relação com profissionais amigos, parentes e conhecidos. Quem nunca foi a um tio, primo, amigo médico porque sabe que ele não cobraria consulta e ainda te daria as amostras grátis de remédios? Quem nunca pediu uma orientação a um parente advogado? Quem nunca ligou para aquele amigo dentista e aproveitou pra fazer um check-up bucal?
Por mais que essa busca seja, primeiramente, em virtude da confiança pessoal e profissional que você deposita nesta pessoa, é inegável que também pesa o fato de não ser cobrado ou, ao menos, ser cobrado minimamente.

E o outro lado? Como fica o profissional quando tem de pesar sua amizade com a pessoa e a necessidade de angariar renda com o fruto do seu trabalho? Não cobra? Divide? Faz desconto? Cobra só o "material"? Situação complicada...

Nessas horas, penso que deve prevalecer o bom-senso. A confiança no profissional amigo, conhecido ou parente pesa. E também pode ser retribuída com um pequeno desconto, uma facilidade no pagamento. Mas não cobrar ou não pagar, creio eu, fica chato pros dois lados.

Quanto ao taxista, me limitei a responder, em linhas gerais e superficiais a sua dúvida.
Tenho sérias dúvidas sobre acaso eu o encontrasse, 1 hora depois, em Cotia e perguntasse se ele não queria me dar uma carona de volta à São Paulo, a prestatividade falaria mais alto.

Quinta-feira, embarco novamente em outro táxi parado no ponto em frente ao escritório.
- Cotia, por favor.
- O senhor é advogado?
- NÃO.

Um silêncio divino reinou por toda a viagem. CND expedida e na mão.

Um comentário:

Fernando disse...

HAHAHAHA
Grande coisa, vc nunca vai ter que dar soluções pra pessoas que te perguntam por quê as violetas que eles compram, morrem depois de uma semana. Ou melhor "Minha avenca tá com uns bichinhos, o que eu faço????".