sábado, 28 de junho de 2008

Ruth Cardoso (1930-2008)



Acho que esse texto, publicado no Estado de São Paulo, definiu muito bem Ruth Cardoso. Para além do título de primeira-dama está o de professora, acadêmica, intelectual, antropóloga.

Uma vida acadêmica marcante

Antropóloga da USP desvendou tendências, enfrentou exílio e criou Comunidade Solidária

Carlos Marchi

A antropóloga Ruth Cardoso tinha luz própria. No meio acadêmico brasileiro, ela foi uma das primeiras a perceber a emergência dos movimentos sociais ligados a diversidades - como os feministas, os étnico-raciais e os de orientação sexual. Até a década de 70, a academia considerava que esses movimentos não tinham status para merecer a atenção da universidade, mas Ruth já os chamava de “novos movimentos sociais”, conta a antropóloga Jacira Melo, aluna dela na Universidade de São Paulo (USP) nos anos 70.
Ela marcaria sua carreira acadêmica pela inovação. Quando o tema ainda era muito árido e distante, estudou a imigração japonesa para São Paulo, lembra o ex-ministro da Cultura Francisco Weffort, e a transformou em tese universitária. Depois do golpe de 1964, enfrentou o exílio ao lado do marido: no Chile, enquanto Fernando Henrique trabalhava na Comissão Econômica para a América Latina (Cepal), ela foi professora da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso), que recebia alunos de muitos países. Depois os dois foram para a França e, de volta ao Brasil, fundaram o Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), que marcaria a pesquisa social no Brasil.
No início dos anos 80, enquanto Fernando Henrique se envolvia na aventura política que o levaria ao Senado e mais tarde à Presidência, Ruth se aprofundou na vida acadêmica.
No Cebrap, num tempo em que poucos perceberam a emergência dos movimentos sociais, ela montou uma primeira equipe para pesquisá-los, quando as organizações não-governamentais ainda eram desconhecidas. Depois diria que desde a década de 70, em plenos anos de chumbo, já percebia os sinais da construção de uma sociedade participativa no Brasil.
Ainda na fase de transição para a montagem do governo FHC, Ruth concebeu a criação do programa Comunidade Solidária. Separou como ninguém o público e o privado: só os amigos antigos tinham livre trânsito na residência presidencial, conta o ex-secretário da Presidência Eduardo Jorge.
Ao mesmo tempo, Ruth revelou-se como o lado franco e progressista do governo. Quando alguém lhe perguntou sobre o então senador Antonio Carlos Magalhães, disse, sem meias medidas, que o PFL tinha dois lados e ACM era o lado ruim. Com a declaração, criou um contencioso que custou a ser resolvido pelo marido. O então ministro José Serra dizia que recebia ordens dela, mas não de FHC.
Vanguarda eles já eram há muito tempo. Quando os filósofos Jean Paul Sartre e Simone de Beauvoir, sua mulher, vieram a São Paulo, em 1960, na primeira fila do auditório acadêmico que os ouvia estava um casal marcante de professores da USP - Fernando Henrique e Ruth Cardoso.
Nascida em Araraquara, ela e Fernando Henrique se conheceram na USP e se casaram em 1953. Apesar de sua aversão à prática política - “Partido não é comigo”, disse uma vez, segundo registrou sua amiga Fátima Pacheco Jordão -, Ruth foi uma das principais conselheiras do marido, enquanto ele esteve no governo.
Era doutora pela USP e pós-doutora pela Universidade de Columbia, nos EUA. Presidiu o conselho assessor do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) sobre Mulher e Desenvolvimento e integrou a junta diretiva da Comissão da Organização Internacional do Trabalho (OIT) sobre as Dimensões Sociais da Globalização.

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