domingo, 8 de junho de 2008

"Se eu for ligar pro que é que vão falar, não faço nada!"

O Homem Sincero (http://www.ohomemsincero.globolog.com.br/) está irretocável neste conto.


Escrito por Fabio Hernandez - 02/06/2008

O sábio está demasiadamente ocupado

Eu tinha brigado com minha primeira namorada. (Pode também ter sido com a segunda. Sempre posso estar enganado. É um direito legítimo de um escritor barato como eu. Balzac não poderia estar enganado. Tolstoi também não. Eu, sim. Mas chega de digressão.)Ela, a primeira ou segunda namorada, me dissera coisas que me pareceram pesadas. Eu estava arrasado.Tio Fábio, um falecido homem sábio do interior, Deus o tenha, notou meu estado de espírito lamentável. Me perguntou o que acontecera. Respondi. Basicamente, disse que ela achava que eu não valia nada. Que jamais seria alguém na vida. Que era preguiçoso. Que minha ambição era desumanamente pequena. Que por isso meu futuro era menos promissor que o de um chiclete.Tenho que admitir que naquela tempestade de ofensas ela encontrou uma grande tirada, essa do chiclete. Ainda hoje, quando masco um chiclete, me lembro da comparação. De certa forma me vejo ali no chiclete mascado. (O tempo provaria que em muitas coisas ela acertara nos vaticínios sombrios. Mas não quero falar sobre isso aqui).

Tio Fábio, com sua voz estentórea de Fred Flintstone, me disse que um dia eu entenderia que o importante não é o que as pessoas pensam sobre a gente. Mas o que nós pensamos de nós mesmos. A opinião alheia pesa muito mais sobre nós que nossa própria opinião.
É engraçado. É patético. Somos vulneráveis, infantilmente vulneráveis ao que dizem e pensam de nós.Se nos elogiam, exultamos. Se nos criticam, ficamos deprimidos. O que nós mesmos pensamos sobre nós não interessa diante da opinião, da voz alheia. E então me ocorre uma conversa posterior de tio Fábio sobre o mesmo assunto. Sabedoria, quando alguém vem dizer que falaram mal de você, segundo tio Fábio, é responder que aquela pessoa maledicente não sabe metade dos seus defeitos. (Ele deve ter aprendido isso com suas leituras de mestres orientais. Ele foi um maníaco por orientais, fossem sábios ou gueixas.)

Somos escravos da opinião dos outros. Achamos que eles julgam grande nosso nariz? Pagamos 5 mil reais por uma cirurgia plástica. Achamos que eles não gostam de nossas roupas? Vestimos as roupas que eles gostariam que nós vestíssemos. Achamos que eles só nos respeitarão se tivermos um carro novo e caro? Compramos. Vivemos, por paradoxal que seja, para os outros, não para nós mesmos.

Você e sua namorada, ou namorado, por exemplo. Aposto que você, antes de fazer alguma coisa no relacionamento, pensa no que ela vai pensar a respeito de sua atitude. Não no que você vai pensar. (Falei em aposta? Sou jogador de pôquer. Mas, estou quase desistindo. Minha tia Lili, blefadora compulsiva, tem me esmagado no jogo. Nem os conselhos de tio Fábio tem sido suficientes para me livrar dos blefes de tia Lili. Socorro.)

Claro que não estou advogando o egoísmo. É o oposto. Estou simplesmente dizendo que o importante é que você se respeite, não que os outros o respeitem. E a gente faz coisas horríveis na tentativa desesperada de conquistar o respeito dos outros. Coisas que muitas vezes nos levam a perder o respeito por nós mesmos. (Alguém aí falou em filosofia barata? Mas o que mais se poderia esperar de um escritor barato? Raciocínios de Platão?)

Se estamos acorrentados à voz alheia, sofremos frequentemente por um reconhecimento que não vem. Isso acontece na vida amorosa. E talvez mais ainda na vida corporativa. E então termino com uma frase que tio Fábio gostava de citar. Confúcio, se não me engano. (Mas posso... bem, não vou repetir.) Mais ou menos assim: O sábio está demasiadamente empenhado em fazer coisas que lhe trarão reconhecimento para perder tempo esperando por reconhecimento.

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