sábado, 21 de junho de 2008

Trabalho: 30% no limite do estresse

Trabalho: 30% no limite do estresse

Funcionários estafados minam a própria saúde e causam enormes perdas financeiras às empresas

CAROLINA DALL'OLIO, carolina.dallolio@grupoestado.com.br

O nome - síndrome de burnout - pode até soar estranho. Mas trata-se de uma doença muito presente em nosso dia-a-dia. De acordo com pesquisa realizada pela International Stress Management Association do Brasil (Isma-BR), três em cada dez trabalhadores apresentam um quadro crônico de estresse, que caracteriza a síndrome de burnout (em português, algo como 'combustão completa').
O termo é usado para classificar um comportamento autodestrutivo, no qual o empregado violenta sua própria saúde no exercício profissional. 'O funcionário com burnout é semelhante a uma vela: ao mesmo tempo em que ilumina o ambiente com seu esforço produtivo, acaba se desgastando até apagar', exemplifica Luiz Antônio Nogueira Martins, chefe do Departamento de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
O estudo da Isma-BR, que é uma associação voltada para a pesquisa do estresse, mostra que o desempenho dos empregados que atingem essa condição é, em média, cinco horas inferior ao dos demais funcionários. Essa baixa produtividade, somada aos atrasos, às faltas e aos gastos com a saúde desses trabalhadores, causa às empresas, segundo cálculos da entidade, um prejuízo anual equivalente a pouco mais de R$ 90 bilhões - ou 3,5% do Produto Interno Bruto (PIB) do País. 'Além das perdas financeiras, esse tipo de profissional atrapalha o ambiente de trabalho e influencia negativamente os colegas', afirma Ana Maria Rossi, diretora da Isma-BR.
É fácil identificar um trabalhador com burnout. É aquele funcionário que se irrita com facilidade, alterna momentos de agressividade e depressão, só reclama da vida, acha que tudo vai dar errado, não se envolve com os projetos da empresa, vive exausto e está sempre prestes a desmoronar. 'Esse é o quadro típico da doença, claramente marcada pela estafa emocional e psicológica', resume Ana Maria.
Embora contar com um funcionário estafado seja prejudicial à empresa, esse comportamento costuma ser produto justamente do estresse ocasionado pelo trabalho. 'As pessoas que são submetidas a pressões muito freqüentes ou muito duradouras estão mais propensas a desenvolver essa síndrome', declara a diretora da Isma-BR. 'Portanto, é mais comum que ela se manifeste no universo do trabalho no qual a cobrança por resultados e a competitividade têm se tornado maiores.'
A professora do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo (USP), Alexandrina Medeiros, afirma que o burnout se diferencia dos outros quadros de tensão por ter como fator causador o estresse gerado entre as relações interpessoais. 'Quem trabalha sozinho, sem a necessidade de interagir com colegas ou clientes, pode até se estressar', diz. 'Mas a peculiaridade do burnout é justamente o desgaste gerado pela obrigatoriedade da convivência com o outro.'
A síndrome acomete principalmente os profissionais da área de saúde, segurança e educação. 'São atividades que, com freqüência, expõem o trabalhador a situações adversas e a um alto nível de estresse', justifica Luiz Antônio Nogueira Martins, da Unifesp. 'Portanto, quem é mais vulnerável não consegue se adaptar à rotina e acaba sucumbindo à pressão.'
Para Alexandrina, as pessoas que entram na empresa cheias de energia e, aos poucos, vão se frustrando com a realidade apresentada são ainda mais suscetíveis ao burnout. 'Quando o funcionário se debate internamente para executar suas funções - seja por não ser vocacionado para o trabalho ou por ter que fazer as coisas de uma maneira distinta daquela que gostaria - vai minando suas forças e apagando o brilho inicial', avalia Alexandrina.
'É nessa hora que ele deve mudar de postura e decidir ou pelo abandono do emprego ou pela aceitação das condições impostas. A única coisa que não pode fazer é destruir a saúde.'

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