sábado, 30 de agosto de 2008

O Herói Olímpico


O HERÓI OLÍMPICO
sáb, 23 de agosto, 2008

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Numa nação de milhões de habitantes, essas pessoas foram selecionadas e preparadas para representá-la como o melhor que aquele país tem a oferecer naquela especialidade. Essa pessoa é a mais apta (no sentido evolucional, poderíamos usar a palavra "fittest", usada por Charles Darwin pra descrever a sobrevivência do mais adaptável), a mais perfeita.

Cada país faz isso, e só pode haver UM ganhador em cada modalidade. Isso significa que a imensa maioria dos competidores vai ter de lidar com o fato de que eles não são o melhor do mundo (ao menos naquele dado momento), mas todos terão a oportunidade de representar da MELHOR FORMA POSSÍVEL o seu país. Poderão dormir tranquilos com o sentimento do dever cumprido, de ter dado o melhor de si e não ter feito feio perante o mundo.O poderoso herói, dotado de poderes extraordinários — capaz de levantar o monte Govardham com um dedo e de preencher-se a si mesmo com a terrível glória do universo —, é cada um de nós: não o eu físico, que podemos ver no espelho, mas o rei que se encontra em nosso íntimo.

Muito se fala ultimamente da cabeça dos atletas brasileiros nas finais. Atletas não são humanos. São semi-deuses. São heróis míticos. Estão no inconsciente coletivo das pessoas como seres que fazem coisas que o humano "normal" não faz. Desde as tribos mais antigas temos o papel, em nossa sociedade, do Shaman (sabedoria) e do guerreiro (herói na sua concepção mais difundida). Se um atleta olímpico, ao falhar com o que se espera dele, anseia ser compreendido em termos humanos "normais", sinto muito, você não entendeu seu papel mítico. Ninguém representou este papel no Brasil melhor do que Ayrton Senna. Mesmo nas derrotas, via-se claramente que ele deu o seu melhor, e se recolhia, buscando concentrar-se para não errar mais. Não era o perfil de um derrotado, não, não. Os resultados (mesmo quando não vinham vitórias) eram visíveis. Nunca vi uma crítica dizendo que Senna não deu o melhor de si, mesmo num esporte ingrato onde se depende totalmente da performance de uma máquina.

Ou seja, ganhar não é tudo: o importante é estar à altura das espectativas. Michael Phelps, por exemplo, encarnou com sobra o papel de herói estadunidense. Não apenas um vencedor, mas um cara forte e bonito, esmagador de recordes e uma máquina confiável e infalível (mesmo que ele diga que não é). Note o paralelo: Os norte-americanos não usam carros "comuns" pra ir de um canto a outro. Eles preferem carros grandes, potentes, vistosos ou intimidadores, mesmo ao custo de consumirem muito combustível. Phelps não foi lá apenas pra competir, e nem foi "apenas" pra vencer: ele foi pra vencer no mínimo 7 medalhas e ser um dos maiores atletas de todos os tempos. Essa era a expectativa, a pressão do mundo (e digo MUNDO) estava em cima dele. E ele era apenas um humano, junto com outros atletas de alto nível, certo? Errado! Ele encarnou seu papel de semi-deus, de herói, o que inclui humildade (a prepotência e arrogância geralmente ficam reservadas aos deuses, como na mitologia grega e nórdica). Tivesse ele ganho 6 medalhas, não teria sido um vencedor, "apenas" um grande vitorioso. Mas ele ganhou 7. E botou seu nome na história dos maiores medalhistas, ao lado tão-somente de Mark Spitz. Mas ele queria mais, e teve a cabeça e garra pra ganhar a 8ª e colocar seu nome no panteão da glória. Agora o herói se torna uma lenda, um mito. Do que se esperava dele, ele fez mais, e fez melhor.

E de quem não se esperava nada? Seriam eles heróis?O que temos no Brasil é uma sociedade destroçada, solapada em suas bases pela sistemática inversão de valores que um punhado de propagandas ufanistas não podem sanar. Quando a "Justiça Suprema" de um país dá liberdade a um salafrário e pune o delegado que o prendeu por tentar suborná-lo, isso passa uma mensagem clara pra sociedade. Não é preciso nem ser adulto pra perceber isso. Quando um presidente se jacta de ser analfabeto e faz vista grossa para as "facilidades" de enriquecimento de seu filho, isso TAMBÉM passa uma mensagem. Os cidadãos de bem estão sem referências, enquanto outros sem caráter têm seus "heróis" em abundância na TV e nos jornais. Numa sociedade assim, o que se sobressai é outro tipo de herói, descrito por Joseph Campbell em seu livro "O herói de mil faces": O herói, por conseguinte, é o homem ou mulher que conseguiu vencer suas limitações históricas pessoais e locais e alcançou formas normalmente válidas, humanas. As visões, idéias e inspirações dessas pessoas vêm diretamente das fontes primárias da vida e do pensamento humanos. Eis por que falam com eloqüência, não da sociedade e da psique atuais, em estado de desintegração, mas da fonte inesgotável por intermédio da qual a sociedade renasce. O herói morreu como homem moderno; mas, como homem eterno — aperfeiçoado, não específico e universal —, renasceu. Sua segunda e solene tarefa e façanha é, por conseguinte, retornar ao nosso meio, transfigurado, e ensinar a lição de vida renovada que aprendeu.

O herói brasileiro das Olimpíadas de Pequim é o judoca Eduardo Santos. Negro, como a maioria dos brasileiros. Pobre, como a maioria dos brasileiros. Digno, como a maioria silenciosa dos brasileiros, párias numa sociedade de raízes escravocratas, que trabalha anonimamente, resistindo ao peso de um sistema opressivo e injusto. Ao perder, reconheceu a derrota, mas não pediu desculpas ao país, que o ignorou até então, e sim aos seus pais: Queria falar para meu pai e minha mãe que dei o melhor de mim, mas não tive competência para derrubar o adversário". Era sua única preocupação.

O herói também costuma não receber reconhecimento ou ser objeto de desdém. Ele e/ou o mundo em que se encontra sofrem de uma deficiência simbólica.Em Maurren Maggi temos ainda outra face do herói. Ela não é heroína apenas por ter ganho a medalha de ouro, mas porque alcançou a redenção, ganhando de si mesma e das expectativas em geral. Em sua estréia nos Jogos, em Sydney (2000), sentiu uma lesão na coxa esquerda e nem chegou à final. Em Atenas (2004), foi flagrada no exame antidoping e teve de cumprir dois anos de suspensão. Casou e foi mãe, desistindo assim dos treinamentos. Em 2006, com o fim do casamento, resolveu voltar às pistas, pra sustentar a filha. Mesmo saltando abaixo dos 7m, ela conquistou a medalha de ouro no Pan do Rio, com 6,84m. Em junho deste ano garantiu a segunda melhor marca mundial do ano, com 6,99m. A consagração viria nos Jogos: em seu primeiro salto na final, Maurren voou e atingiu o ápice de sua carreira e o melhor desempenho individual feminino brasileiro da história: 7,04m, que lhe garantiu a medalha de ouro.
(o mito) é bem como sonho grupal, sintomático dos impulsos arquetípicos existentes no interior das mais profundas camadas da psique humana (Jung).


Se formos considerar nossos heróis (ou candidatos a heróis) nas olimpíadas como reflexo do coletivo de nosso país, não só podemos imaginar que eles nos influenciam, como nós influenciamos eles. Assim, o que falar de Jade, Diego Hipólito, Daiane dos Santos, nosso futebol e vôlei de praia que, com capacidade de sobra pra brilhar, se auto-sabotaram (apagaram) em um momento crítico da jornada? Não seriam eles um reflexo do nosso eterno "país do futuro", o "gigante" "deitado eternamente em berço esplêndido"? Todos com quem conversei consideram a candidatura do Brasil às Olimpíadas de 2016 uma tentativa de dar vexame em escala mundial. O brasileiro, que sempre procurou acolher tão bem seus visitantes, não se sente digno de ser um país anfitrião de uma olimpíada, e TEMOS MOTIVOS DE SOBRA PRA ISSO. Não interessa se temos Lula e Pelé animados no lobby em Pequim, o fato é que esses líderes não representam o anseio e pensamento da nação.

Apesar de todo o nosso potencial, não acreditamos e não nos dão motivo de acreditarmos em nós mesmos, e assim nos sabotamos, mesmo inconscientemente.

Não é a sociedade que deve orientar e salvar o herói criativo; deve ocorrer precisamente o contrário. Dessa maneira, todos compartilhamos da suprema provação — todos carregamos a cruz do redentor —, não nos momentos brilhantes das grandes vitórias da tribo, mas nos silêncios do nosso próprio desespero.

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