domingo, 7 de setembro de 2008

Morte por Sufocamento Cultural

Morte por sufocamento cultural.

De Cristiana Soares.

Blônicas - http://blonicas.zip.net/

Nunca havia ouvido a palavra "vagabunda" tantas vezes como naquela capital onde morei. Foram longos cinco anos testemunhando homens se referindo a mulheres usando esse linguajar, em geral pelas costas. Além de ficar chocada com a óbvia falta de respeito e com a pouca delicadeza, refletia com meus botões cariocas: "O que é ser vagabunda para eles?" Instalava-se um choque cultural do tamanho da Amazônia devastada.Num barzinho badalado entre os moderninhos, escutei um cidadão dizer à namorada que é feio mulher beber no gargalo (detalhe: ela tomava uma long neck, embalagem criada especialmente para ser utilizada dessa forma). E ainda arrancou o cigarro da boca da moça.Na agência onde trabalhava, dei um tapinha amistoso no braço de um colega e o chefe, que estava ao lado, fez um comentário buscando o olhar cúmplice masculino: "Aeee... tá te dando mole..."Uma profissional de atendimento me contou que um cliente havia lhe dito que uma mulher na idade dela (nem tinha completado 30), solteira, só servia para amante. Noutra oportunidade, quando eu comentei por acaso que havia sido casada duas vezes, ela ficou impressionada e me chamou de sortuda. Medo.Muitos deles deixavam suas namoradas em casa cedo para poderem cair na noite. Pré-revolução de costumes ou implicância minha?Numa festa de publicitários, qual não foi meu susto ao abrir os olhos no meio do embalo e ver um paredão de pessoas "botando reparo" em quem estava dançando. Sabe aquele olhar crítico de fofoqueira da década de 50? No dia seguinte, teriam muito o que comentar na firma.Aos domingos, passeando com as crianças (na feirinha de artesanato, no parque ou no shopping), só via casais com seus rebentos. Nem pai nem mãe separados. Apenas eu cometi tal heresia? Ou pelo menos só eu tinha o desplante de exibir esse infortúnio. Um morador acrescentou, em off, que ninguém se separava mas todo mundo se traía. Tudo muito família, é claro.Na fila do supermercado, comentei com a senhora distinta algo a respeito do preço ou qualidade de um produto. A mulher me olhou de cima abaixo como que dizendo "Te conheço?".Uma amiga ousou me levar como companhia de última hora a uma reuniãozinha na qual fui educadamente ignorada. Trauma.Levei minhas filhas ao aniversário da amiguinha de uma delas e no final a mãe da aniversariante, entregando as lembrancinhas, disse-me que só havia a quantidade certa de convidados, dando-me a indireta de que não deveria ter levado a irmã. Eu respondi, constrangida, mas digna, que não tinha importância, pois lá em casa, tudo o que era de uma era de outra. Uma lembrancinha bastava para as duas.Foi chato ter que ser a Leila Diniz da agência. No começo eles nem entendiam o que era "aquilo" (no caso, eu). Não me computavam, não conseguiam me classificar. Aos poucos foram me absorvendo, mesmo eu falando mal deles para eles (era até divertido, confesso, e acabei me apegando àquele grupo). No final, a carola, que antes não falava palavrão, me superou. Dei minha contribuição modesta aos costumes locais.Em troca, minha identidade foi enfraquecendo, ficando sem ar. Vesti a armadura de Joana d'Arc para ir da casa para o trabalho, do trabalho para casa. Desisti de vida social, antes que me tornasse vítima de um sufocamento cultural.São Paulo me salvou.

Cristiana Soares é cronista do Blônicas.

http://blonicas.zip.net/

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