domingo, 19 de outubro de 2008

Filmes - Ensaio sobre a cegueira




Ontem assisti ao filme Ensaio Sobre a Cegueira (Brasil, Canadá/ 2008. De Fernando Meirelles. Com Juliane Moore, Mark Rufallo, Gael Garcia Bernal, Danny Glover, Alice Braga. Drama) baseado na obra homônima de José Saramago.


O filme conta a história de uma inédita epidemia de cegueira, inexplicável, que se abate sobre uma cidade não identificada. Tal "cegueira branca" - assim chamada, pois as pessoas infectadas passam a ver apenas uma superfície leitosa - manifesta-se primeiramente em um homem no trânsito e, lentamente, espalha-se pelo país. Aos poucos, todos acabam cegos e reduzidos a meros seres lutando por suas necessidades básicas, expondo seus instintos primários. À medida que os afetados pela epidemia são colocados em quarentena e os serviços do Estado começam a falhar, a trama segue a mulher de um médico, a única pessoa que não é afetada pela doença.



O foco do filme, no entanto, não é desvendar a causa da doença ou sua cura, mas mostrar o desmoronar completo da sociedade que, perde tudo aquilo que considera civilizado. Ao mesmo tempo em que vemos o colapso da civilização, um grupo de internos tenta reencontrar a humanidade perdida. O brilho branco da cegueira ilumina as percepções das personagens principais, e a história torna-se não só um registro da sobrevivência física das multidões cegas, mas, também, dos seus mundos emocionais e da dignidade que tentam manter. Mais do que olhar, importa reparar no outro. Só dessa forma o homem se humaniza novamente.


Dentre as várias coisas que me chamaram a atenção no filme, cito o fato de que ele prova ser o homem um ser hobbesiano. Nunca gostei muito de Rosseau e sua história do homem com o "bom selvagem", naturalmente bom e corrompido pela sociedade. Pra mim o homem sempre foi ruim por natureza, instintivo, selvagem, o "lobo do homem". A sociedade, o Estado, a lei e o Contrato Social são os instrumentos que lhe podam seus instintos naturais para que o convívio mútuo seja possível.


Neste filme podemos ver tudo o que caracteriza a sociedade (tanto a atual como a antiga): o sectarismo (isolamento dos cegos num manicômio), a violência gratuita (os disparos dos soldados sobre os cegos), o cinismo dos políticos (medidas tomadas para tentar debelar a epidemia de cegueira), o egoísmo (cada cego por si), os grupos armados que não são mais do que a caricatura dos bandos criminosos, a porcaria que inundava a cidade, dentre outras coisas.


Fica também claro, que o ser humano está, naturalmente, sempre em luta pelo poder. Reparem quando o médico tenta colocar ordem, estabelecer regras no presídio. Daí vem o personagem interpretado por Gael Garcia Bernal e diz: quem você pensa que é? Eu não gosto de democracia. Meu negócio é Monarquia. De agora em diante, eu me proclamo Rei da Ala 3", e daí está instalada a balbúdia e a guerra pelo controle do manicômio.


Outra metáfora interessante é aquela atividade comum em dinâmicas de grupo, quando temos que escolher, numa situação hipótetica de habitarmos uma ilha desconhecida, quais pessoas levarmos para lá. No filme temos o médico, a prostituta, a criança, a mulher do médico, etc.etc.


Enfim, fiz apenas uma análise política do filme. Existem outros vários temas psicológicos, éticos, filosóficos, sociológicos no filme. Vale a pena assistir!


2 comentários:

Ana disse...

Oi Johny, eu já tinha lido seu comentário e gostei bastante na época, você disseca a questão política e também social do filme.
Quando li o livro, no entanto, tive a impressão que o Saramago dá uma pista da cegueira e isso se revela no que pra mim se trata da continuação, "ensaio sobre a lucidez". O país que foi assolado pela cegueira faz uma revolução política e parece que isso só acontece pq eles voltaram a "enxergar", não é só a visão do olhar que volta, mas da percepção do certo e do errado, uma visão crítica, bem... essa foi minha impressão pelo menos, obrigada pelas visitas no cafofo, gosto bastante dos seus comentários lá. Beijos, Ana

Anônimo disse...

- Filminho do caralhoo viiu , --'