domingo, 12 de outubro de 2008

Maysa vai virar minissérie!


'Escrevi a minissérie para o Jayme'
Manoel Carlos fala sobre a delicada missão de escrever uma biografia que seria dirigida pelo próprio filho da biografada
Patrícia Villalba
O autor Manoel Carlos conta que recebeu apenas dois pedidos do diretor Jayme Monjardim durante o processo de roteirização de Maysa. Que a minissérie não terminasse com o enterro de sua mãe. E que ele, como personagem, tivesse a chance de dizer a ela o quanto ficou magoado, quando ela foi visitá-lo no internato e se negou a beijá-lo, porque ele tinha febre. O autor atendeu prontamente o segundo pedido, e criou uma cena em que Jayme tem a oportunidade de dizer à mãe que carregava certa mágoa desde criança. Das cenas do enterro, entretanto, o autor não quer abrir mão. "Pretendo convencer o Jayme até o fim das gravações", diz Maneco, que neste trecho da entrevista segue dando detalhes sobre o processo de recriação da vida de Maysa. Como foi a relação com Jayme Monjardim na hora de escrever? Quando ele me convidou, fiquei muito honrado e muito hesitante. Pensei seriamente em não aceitar, achei complicado escrever sobre a mãe do diretor. Mas ele me deixou claro que não faria objeção a nada, e cumpriu. E eu disse que ia fazer de conta que escrevia sobre a vida da Ângela Maria. Mas depois de um tempo, pensei o seguinte: "Vou fazer essa minissérie para o Jayme, para ele ver e ficar feliz." Mesmo assim, você verá, há coisas muito pesadas. E ele só fez duas pequenas objeções. Pediu para não pôr o enterro dela. Não por qualquer razão sentimental, mas porque achou que a minissérie pode acabar para baixo. Deixamos para resolver mais tarde. E há uma cena em que a Maysa vai visitar o filho no internato na Espanha e ele está com muita febre. Ela é particularmente dura, porque ele quer dar um beijo nela, mas ela se recusa. Todo mundo que leu fica escandalizado. Então o Jayme me pediu para mencionar essa coisa da garganta na cena em que os dois se vêem pela última vez, no aeroporto, antes de ele viajar em lua-de-mel. Na cena, ele diz que ficou triste quando ela fez aquilo. E ela explica que era por que tinha de cuidar da voz.
Você chegou a conhecer a Maysa pessoalmente?
Sim, mas não fomos amigos. Conheci-a nos bastidores da Record, quando ela tinha o programa dela. Depois, quando eu dirigia O Fino da Bossa, ela participou de um dos programas. Mais tarde, eu cheguei a ir à casa dela, com colegas da TV Record. Ela cantou com violão, como era hábito. Foi uma época em que as pessoas se reuniam muito, era o começo do banquinho e violão.
Como o senhor lidou no texto com os escândalos e a relação dela com as drogas?
Não existe um artista brasileiro cercado de tantas lendas como a Maysa, talvez por causa de sua vida conturbada e tão pública. Ela estava muitas vezes no jornal como artista e cantora, e outras vezes por tentativas de suicídio, bebedeiras, brigas. Mas ela não se drogava como as pessoas pensam - cocaína, ópio, nada disso. O máximo que se tem registro era uns "tapas" de maconha. A droga da Maysa era remédio - para emagrecer, para dormir, para acordar - tomado com uísque e vodca.
Era uma coisa pela vaidade, como a Maria Callas?
Muito, boa lembrança. Ela tinha uma tendência para engordar muito grande. Ela poderia ser gorda como a Lenny Anderson, mas ela era vaidosa. E privilegiava muito os romances, estava sempre envolvida com alguém. Ela era cantora de boate, onde todo mundo bebia e fumava desbragadamente. A foto mais comum da Maysa é com um copo na mão e um cigarro entre os dedos.
A época da saúde acabou com esse tipo de voz, regada a uísque e cigarro. Só temos a Amy Winehouse. Você lembrou bem, talvez ela seja correspondente nos dias de hoje às cantoras como a Maysa. Não sei como é que o público de hoje vai receber essa história e essa voz. Quando eu fiz (a minissérie) Presença de Anita, pus Ne Me Quitte Pas cantada por ela na trilha. As pessoas ficaram deslumbradas com a interpretação. Entre as lendas existentes , há a de que quando ela cantou em Paris, no Olympia, o Jacques Brel estava na platéia e disse que foi a melhor interpretação que ele já tinha visto da música dele.
Fico surpresa com o que o senhor falou, sobre a Maysa ter reinado nas revistas de celebridades. Por que será que ela não passou à posteridade como uma Elis Regina, a ponto de quase não tocar mais no rádio?
Ela foi a mais popular artista brasileira de um determinado tempo, assim como foi a artista que mais ganhou dinheiro num determinado período. É estranho mesmo como ela ficou obscurecida. Talvez isso tenha acontecido porque ela entrou nessa mudança do samba-canção para a bossa nova. Ela tinha uma voz inconfundível, não se parece com Nara, Gal, Bethânia, com ninguém. Isso dá uma distinção grande a ela. É uma voz única, mas com um repertório que ficou muito datado.
Para reviver o mito Maysa
O autor Manoel Carlos fala ao Estado sobre o processo de recriação da vida da grande diva da canção brasileira, que será contada em minissérie na Globo Patrícia Villalba O autor Manoel Carlos confessa que engoliu seco quando o diretor Jayme Monjardim lhe pediu que escrevesse uma minissérie sobre a vida de sua mãe, a cantora Maysa (1936-1977). É comum que biografias emperrem nas discordâncias entre autor e herdeiros, sobre o que deve ou não ser mostrado. Não foi o caso. Monjardim, único filho da diva, não fez grandes restrições e, ao contrário, criou toda a facilidade para que Maneco explorasse a grande personagem que foi sua mãe, em todos seus esplendores, amores rasgados, escândalos e fossas.
Maysa - Uma Mulher à Frente de Seu Tempo tem nove capítulos, agora em fase de produção, e estréia em janeiro na Globo. Novata na TV, a atriz Larissa Maciel surge no set incrivelmente parecida com a mãe do diretor, somando sua aparência física a um minucioso estudo de seis meses dos trejeitos da personagem. "Quando a vi pela primeira vez, confesso que não a achei parecida com a Maysa", revela Maneco. "Mas com a caracterização e a expressão corporal, ela ficou idêntica! Ela segura o cigarro e o copo de uísque igualzinho à Maysa."
Logo depois de concluir o roteiro de Maysa, Manoel Carlos recebeu o Estado na mesa marroquina que mantém cativa na adega do restaurante Garcia & Rodrigues, no Leblon. "Eu quis comprar a mesa, e o dono me deu de presente sob a condição de que eu não a tirasse do restaurante. Desde então, marco minhas reuniões aqui", comentou o autor, pouco antes de analisar o mito que agora é seu personagem.
Qual a estrutura que escolheu para conseguir contar a história de Maysa em nove capítulos?
A estrutura não é linear. É uma minissérie com idas e vindas, mais ou menos na linha do filme Piaf (de Olivier Dahan, 2007). Aquele filme tem muito significado para a minissérie porque a própria Maysa tem pontos em comum com Edith Piaf. E não é uma biografia exata da Maysa, é um ensaio sobre ela. Com dados biográficos, claro, mas também com muitos dados ficcionais. Escrevi com liberdade.
E qual foi o ponto de partida?
Uma biografia tradicional da Maysa não poderia ter 9 capítulos, teria de ter muito mais. O trabalho inicial foi pegar uma quantidade imensa de pesquisa - fotos, diários, anotações, recortes de jornais e revistas. Ela era uma pessoa singular: guardava rigorosamente tudo o que saía sobre ela. O Jayme mandou para a minha casa quase cem pastas de recortes. Foi preciso fazer triagem. Opções difíceis, que tinham de ser radicais. Ela teve, por exemplo, sete romances palpitantes - eu tive de escolher três ou quatro. Ela viajou o mundo inteiro, mas tive de fazer opções - Paris, Buenos Aires, Lisboa e a Espanha, onde ela morou. Não é uma biografia rigorosa, mas um pinçamento de fatos da vida da Maysa.
Chegou a conversar com as pessoas que conviveram com ela?
Não. Eu não fiz nenhuma entrevista porque ia nos fazer mergulhar numa confusão. Sabe como é: uma diz uma coisa; outra diz outra coisa. Então, nos prendemos ao que existia impresso, documentado. E há muitos vídeos dela. Não é algo muito distante, ela morreu há 30 anos. É pouco tempo para uma pessoa como eu, que tenho 75 anos.
Quando recebeu o projeto, já sabia que teria nove capítulos?
Não. Quando o Jayme me propôs escrever a história, chegamos a pensar em 20 capítulos ou 16, que eu considero um tamanho ótimo - são 4 semanas no ar. Acontece que quando a coisa foi para a direção da Globo, resolveram que seriam nove. Quando eu estava no meio da minissérie, reivindiquei que fossem 13, mas não foi aceito. Poderia ter 50 capítulos, mas de uma certa maneira, tudo poderia ter 50 capítulos. E tudo o que pode ser contado em 50 capítulos pode ser contado em 9.

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