sábado, 4 de outubro de 2008

No Paquistão, um crime bárbaro em nome da tradição

Mais uma da série "A Burrice é Invencível"...

29/09/2008

No Paquistão, um crime bárbaro em nome da tradição

Frédéric Bobin
Em Islamabad (Paquistão)

Eram três irmãs, com idades de 16 a 18 anos. Hameeda, Ruqqaya e Raheena viviam em Baba Kot, uma aldeia no Baluchistão, uma província árida situada no sudoeste do Paquistão, nos confins do Irã e do Afeganistão, lá onde a terra se resume a areia, pedras e rochas buriladas pelo vento. Elas morreram enterradas vivas numa vala comum. Foram vítimas de um "crime de honra" que, pela sua selvageria inédita, vem assombrando as consciências nestas últimas semanas por todo o Paquistão, onde a população geralmente aceita sem problema esses assassinatos que são práticas costumeiras ancestrais. Hameeda, Ruqqaya e Raheena foram assassinadas em nome da tradição. Elas cometeram o crime de querer casar-se com o homem da sua escolha, e não com os primos que a tribo - dos umrani - havia indicado para elas. O que aconteceu realmente em 14 de julho, naquele dia funesto em que o crime foi perpetrado? Uma sucessão de fatos delineou-se em função das indicações que foram publicadas pela imprensa paquistanesa. Em 13 de julho, as três jovens mulheres haviam deixado sua aldeia de Baba Kot a bordo de um táxi, acompanhadas pela sua mãe e por uma tia. O grupo dirigiu-se na direção de Usta Mohammad, um vilarejo situado a 80 km, onde Hameeda, Ruqqaya e Raheena queriam comparecer no tribunal civil local para se casarem com os homens que haviam escolhido. A escapada revelaria ser breve e, sobretudo, fatal. Mal haviam chegado a Usta Mohammad, as cinco mulheres foram raptadas por um comando de homens da tribo umrani que as perseguiam desde a sua partida. Elas tinham vilipendiado a ordem ancestral, que sujeita as moças às estratégias matrimoniais do clã, e, portanto, elas precisavam ser castigadas. Elas foram então embarcadas á força - sob a ameaça de fuzis - dentro da van Land Cruiser dos seus seqüestradores, que as conduziram de volta para a aldeia familiar de Baba Kot. Lá, uma jirga - assembléia de notáveis - estava à sua espera, solenemente convocada para decidir sobre as sanções a serem aplicadas contra elas. Prometeram-lhes uma morte muito especial. Esta seria precedida por um pavoroso suplício que deveria servir de lição para todas as outras moças da comunidade. No dia seguinte, conduzem as cinco condenadas até a parte central de uma área deserta. Os carrascos da tribo levaram consigo uma escavadeira. A máquina começa a cavar uma fossa. Então, o motorista que está nos comandos do buldôzer aciona a lâmina dentada. Ele a dirige sobre as mulheres que estão amarradas e alinhadas. A ferramenta funciona como uma faca gigante que tritura sua carne, seus ossos, seu crânio. Depois disso, uma rajada de tiros de fuzil as ceifa. A escavadeira empurra então os corpos martirizados para dentro da vala que se tornaria o seu túmulo. Elas sangram em abundância, mas, conforme relatarão mais tarde os jornalistas paquistaneses, elas ainda não haviam sucumbido aos seus ferimentos quando os torturadores começaram a cobri-las com areia e pedras. Mulheres foram enterradas vivas no Baluchistão! O que saberíamos hoje a respeito deste crime bárbaro se a sociedade civil paquistanesa, ajudada pelos seus veículos de comunicação audaciosos e suas associações feministas inconformadas, não tivesse se mobilizado para evitar que as supliciadas de Baba Kot fossem enterradas uma segunda vez? A informação veio à tona em 24 de julho, graças a um corajoso jornalista local, um correspondente do diário em língua urdu "Jang", que trabalha na sucursal de Quetta, a capital do Baluchistão. O artigo não oferece muitos detalhes e não cita nome algum, mas o seu autor não demora a receber ameaças de morte por parte da tribo umrani. Justificativa cultural A partir daquele momento, é na cidade de Islamabad, a capital do país, onde muitas mentes esclarecidas já se mobilizaram, que o combate jornalístico começa a ser orquestrado. O diário em inglês "The News" se destaca nessa tarefa. Ele confia para Rauf Klasra, um jornalista de investigação acostumado com os escândalos financeiros, a missão de desembaralhar o fio da meada deste "crime de honra", que uma conspiração do silêncio parece querer abafar. A polícia do Baluchistão não toma iniciativa alguma, porque personalidades locais de peso estão envolvidas no crime. A Land Cruiser que permitiu seqüestrar as cinco mulheres tinha uma placa oficial que é reservada exclusivamente para os veículos do governo do Baluchistão. Segundo apontaram várias testemunhas, o instigador do assassinato seria Abdul Sattar Umrani, que não é ninguém mais que o irmão de Sadiq Umrani, o ministro da habitação do governo do Baluchistão, um respeitado membro do Partido do Povo Paquistanês (PPP), o partido do clã dos Bhutto que está atualmente no poder no Paquistão. Por mais que o movimento que foi liderado durante mais de duas décadas por Benazir Bhutto (assassinada no final de 2007) se valha de um progressismo teórico em relação à questão dos direitos das mulheres, as tramóias e os conluios politiqueiros quase sempre acabam soterrando os nobres ideais. Acima de tudo, o PPP tenta evitar ofender os chefes de tribo do Baluchistão, uma província que contribuiu de maneira decisiva para a eleição, em 6 de setembro, de Asif Ali Zardari, o viúvo de Benazir, para a presidência do Estado. Contudo, o jornalista Rauf Klasra insiste em prosseguir até o fim a tarefa que lhe foi confiada. "É uma história de enorme importância, mas eu estava com medo de que ela acabasse sendo esquecida", explica, "isso porque os nossos dirigentes políticos fingiam não terem interesse nela". Portanto, o investigador do "The News" mantém a pressão, e segue revelando cada novo indício que ele encontra. O seu trabalho acaba encontrando uma receptividade inesperada no Senado, em 29 de agosto, quando, respondendo a uma interpelação de uma eleita a respeito do drama de Baba Kot, Mir Israhullah Zehri, um representante de um partido nacionalista do Baluchistão, apresenta como argumento uma justificativa cultural dos "crimes de honra". "Estas são tradições que remontam a muitos séculos", argumenta, "e eu sempre lutarei em favor da sua manutenção". No hemiciclo, protestos são ouvidos por todos os lados. A televisão filma esta altercação incomum e, assim fazendo, confere uma dimensão nacional para o caso. "Tudo mudou de figura a partir do momento em que os canais de televisão transmitiram este incidente no Senado", decifra Rauf Klasra. "Num país como o Paquistão, onde a taxa de analfabetismo é muito elevada (70%), a imprensa escrita tem pouca repercussão. Uma vez que as emissoras de TV começaram a cobrir o caso, os dirigentes políticos foram obrigados a reagirem". O Paquistão deixou de ser verdadeiramente o mesmo desde que os canais privados floresceram, aproveitando-se da desregulamentação do setor audiovisual, uma herança paradoxal do reinado militar (1999-2008) do ex-presidente Pervez Musharraf. Com isso, o silêncio constrangido deu lugar repentinamente para a indignação virtuosa. O Senado federal e a assembléia provincial do Sind adotaram resoluções denunciando o assassinato coletivo de Baba Kot. Nunca ninguém tinha visto coisa igual na história do Paquistão! Nunca um "crime de honra" havia provocado uma emoção tão grande, nas mais altas esferas do Estado. "Está havendo um verdadeiro processo de conscientização", admite Rauf Klasra. As próprias feministas reconheceram que o seu combate, que era incompreendido e laborioso cerca de quinze anos atrás, passou a ter uma repercussão crescente na classe política. "Recentemente, comecei a ser convidada para dar palestras na Escola da magistratura", comemora Samar Minullah, uma documentarista antropóloga que se especializou nos "crimes de honra". Daqui para frente, dois Paquistãos estão frente a frente. O dos pretórios e dos hemiciclos; e aquele das tribos. Entre os dois, abriu-se uma profunda vala comum.

Tradução: Jean-Yves de Neufville

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