domingo, 11 de janeiro de 2009

Livro – O Otelo Brasileiro de Machado de Assis (Helen Caldwell)


Machado de Assis era um gênio. Sua obra-prima, Dom Casmurro, suscita debates acalorados até hoje. Capitu traiu ou não traiu Bentinho?

That is the question.

Em 2008 comemoramos o centenário da morte de Machado de Assis. O debate, obviamente, voltou a toda carga.

A genialidade de Dom Casmurro está na dúvida. Que começa a ler o livro com suas certezas formadas, já começa errado. Ainda mais interessante é que a interpretação da leitura de Dom Casmurro é a própria interpretação da cultura brasileira à época em que foi feita.

Por anos a fio, os críticos literários eram praticamente unânimes no sentido de que Capitu era uma adúltera. Alex Castro citou: José Veríssimo, Dalton Trevisan, Augusto Meyer, Barreto Filho e até Millôr Fernandes. Todos concordavam que os olhos oblíquos de cigana dissimulada de Capitu não enganavam ninguém.

Mas aí, veio Helen Caldwell, crítica literária norte-americana, que em 1960 defendeu sua tese de Doutorado na University of Califórnia (surpreendentemente só traduzido para o português recentemente) com o título "O Otelo Brasileiro de Machado de Assis – Um Estudo de Dom Casmurro" (Ateliê Editorial, R$ 42,00). O grande mérito de Caldwell foi inverter a leitura que se costumava fazer da obra de Machado. Até a sua intervenção, imputava-se a culpa à Capitu; Caldwell, entretanto, pôs Bentinho no banco dos réus.

Este é, sem dúvida, um dos melhores livros que eu li em 2008. Caldwell realiza uma verdadeira análise investigativa sobre nomes, símbolos e fontes para reafirmar sua posição.

Para a autora, Machado não nomeia seus personagens ao acaso. Vejamos o caso do personagem principal. Dom Casmurro, como sabemos é o apelido de Bento Santiago.

Bento é o prenome; Santiago, o sobrenome.
Para quem, antes mesmo de ser concebido, já fora prometido a Deus, o prenome é perfeito.

"Os projetos vinham do tempo em que fui concebido. Tendo-lhe nascido morto o primeiro filho, minha mãe pegou-se com Deus para que o segundo vingasse, prometendo, se fosse varão, metê-lo na Igreja" (Dom Casmurro)

Ao nascer, nossa personagem recebe um prenome que lhe determinará
o destino: ser bento, puro, já ungido pela promessa de ser padre. Não contava a mãe, a também santa Dona Glória, que o destino lhe seria outro. Bentou não virou padre. Ao contrário, tornou-se advogado.

Entretanto, jamais se desfez da essência contida no seu prenome e nem
da promessa de sua mãe. Manteve-se, mesmo inconscientemente, bento (santo). Um bento que tinha como modelo mais especial de santo(a), a sua mãe. Se D. Glória é santa e se Capitu se contrapõe a ela, há muito de diabólico, de demoníaco em Capitu. Vivendo nesse dualismo, Bentinho reforça seu maniqueísmo não apenas na sua personalidade, mas também em seu sobrenome: Santiago

– uma ponta de Santo, uma ponta de Iago:

"O nome 'Santiago' cabe bem em uma construção similar de nosso herói: ele é parte santo(Sant'), parte Iago – o bem, ou o santo, e as qualidades de Iago em guerra recíproca por sua alma" (CALDWELL,2002, p.69).

Bento Santiago é, ao mesmo tempo, o Iago e o Otelo de si próprio!

É certo que o olhar estrangeiro, protestante e, talvez, feminista, da autora gerou uma crítica sagaz à Dom Casmurro. Entretanto, a análise da influência de Shakespeare na cultura literária do autor é excelente. Caldwell disseca todas as comparações possíveis entre personagens e enredos, em um rico e conceituado paralelismo entre os dois escritores.

Como diria minha professora do colegial: "Machadão é F-O-D-A!"

Mais do que isso, Caldwell eleva Machado de Assis a um dos mais altos pódios da Literatura Mundial: "Os brasileiros possuem uma jóia que deve ser motivo de inveja para todo o mundo, um verdadeiro Kohinoor [diamante] entre os escritores de ficção".

Enfim, como já disse no começo, a genialidade do livro é a dúvida.

E Camila Briganti, com sua inteligência e sagacidade peculiar, resume tudo nesta pérola:


"Sim. Capitu traiu, sim, Bentinho. Pelo menos (e talvez somente) na imaginação. De Bentinho."
.

3 comentários:

The Creative Adviser disse...

Ciao JP, linkado com o creative adviser blog. Abs

Lília disse...

Eu certa vez ouvi em um debate algo muito interessante sobre o livro Dom Casmurro, se dizia que a dúvida sobre a traição de capitu mudava de acordo com a fase em que se lia o livro.
Essa é uma grande sacada também!

Veja bem... se vc tem 16 anos e está na fase da paixonite aguda, você realmente não acredita que Capitu tenha sido capaz disso, afinal era um amor tão puro... ela não seria capaz!!
Com 25 anos você duvida, fica em cima do muro, e acha que se ela foi adultera ela foi uma tremenda FDP.
Se vc passou dos 30 vc passa a ter certeza de que ela o traiu e que foi merecido, afinal o cara era um chato e ela era linda e cheia de vida! rsrsrs

Achei super interessante essa análise!

Não conhecia esse livro, mas realmente acho que deve ser um espetáculo!!

Lília disse...

Só respondendo ao seu comentário: MACHADÃO É FODÁSTICO! hehehehe