domingo, 16 de agosto de 2009

O quarto - M u n d o M u n d a n o

03/08/2009

o quarto

Johnny na Babilônia
Saí de casa muito cedo, aos 14 anos. Não saí fugido ou expulso, mas saí pra muito longe. Mais precisamente 1400 km. Apenas duas vezes por ano, nas férias escolares, visitava minha antiga cidade, meus pais e meu quarto.

O quarto. Aquele que abandonei era conservado pelos meus pais. Não fizeram reforma, não pintaram, não arrancaram as flâmulas nem trocaram o tapete. Naquele cantinho do filho que se foi, repousava o meu cheiro, o meu pijama, o meu abajur com mau-contato.

Até que num mês de dezembro qualquer voltei pra casa e não encontrei meu quarto. Fisicamente ainda estava lá, mas a minha cama, as minhas coisas, meus livros e porta-retratos tinham dado lugar aos da minha irmã menor. Ela agora era a dona daquele pedaço. E aquilo doeu muito. Não por ser ela – que eu amo, mas sim pela carga simbólica que aquele “despejo” teve sobre mim.

Aquelas quatro paredes, aquele cantinho só meu e que eu supunha ser eterno não existia mais. A explicação dos meus pais era bastante plausível: o quarto era maior, tinha armários, era mais confortável. Não havia razão para ficar sub-utilizado. Concordo. Mas mesmo assim doeu...

Hoje vejo o quanto me fez bem. Eu ainda era muito ligado ao passado, às origens, precisava cortar aquele cordão umbilical, ainda que violentamente, para poder por em prática o que de mais bonito meus pais me ensinaram: ser uma pessoa do mundo. Um Mundano.

E assim foi. Passei a frequentar e morar em outros quartos. Os dos parentes, dos amigos, das “repúblicas”, da namorada, ou só meus. Cochilei, dormi e morei em quartos de vários países.

Até que um dia topei com uma maluca que me contou morar numa casa cheia de escritores, poetas, trovadores, artistas, mundanos, e me chamou pra entrar nela. Na hora acabei não aceitando por um misto de medo, insegurança, timidez, mas também porque adoro fazer um doce.

Terminei por entrar e me deliciar. Algum tempo depois me chamou pra entrar num quarto especial. Dizia que era bonito, divertido, mas por ser o mais antigo da casa, requeria muita responsabilidade ao entrar. Naquele instante acabei não aceitando, também por um misto de medo, insegurança, timidez, e acima de tudo porque adoro fazer um doce. Mas já me rendi. Mergulhei de cabeça nesse quartinho tão parecido com aquele em que passei minha infância na Bahia.

É o quarto de uma casa onde podemos entrar gritar, escrever, criar, chorar, produzir. Uma casa pra branco, preto, amarelo, rico, pobre, santo, puta, caretas, ilegais, encosto, pastor. E um quarto transbordando amizade, poesia, inteligência, projetos, realizações e sucesso.

Duas semanas atrás, estive no meu antigo quarto, que eu não visitava havia quase dois anos. O tratamento foi idêntico, como se eu ainda fosse aquela criança. Não adianta. Os pais nos veem como aquelas crianças que eles deixaram crescer um pouquinho.

E na hora do chá com meu bolo preferido, contei da minha nova casa – que já fez um ano de vida, e em especial do meu novo quarto. E convidei-os a me visitar. Assim como faço a todos os outros.
Venham.
Entrem.
A casa é de vocês!

Beijos e abraços Mundanos,

Johnny na Babilônia, (explodindo de lisonjeio), novo membro do Conselho Editorial.



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