domingo, 3 de janeiro de 2010

Barbárie...

ONU confirma massacre em estádio

Relatório diz que soldados mataram 150 civis e estupraram mulheres no gramado durante ato pacífico há 3 meses na Guiné

Jamil Chade

No momento em que o continente africano se prepara para receber, pela primeira vez, uma Copa do Mundo, investigações realizadas pela Organização das Nações Unidas (ONU) e por uma ONG independente comprovam que um estádio de futebol foi usado, há três meses, para perpetuar um massacre que pode ter deixado até 200 mortos. A matança ocorreu em Conacri, capital da Guiné - ex-colônia francesa de 10 milhões de habitantes situada no oeste africano. O estádio da capital foi invadido por soldados do Exército durante um protesto pacífico, convocado por civis, pedindo democracia. Além de abrir fogo contra a multidão, soldados estupraram mulheres no gramado e executaram civis nos vestiários e até nas arquibancadas.

A porta-voz da ONU, Helena Ponomareva, confirmou na semana passada em Genebra que há indicações de envolvimento oficial do Exército no massacre. Segundo ela, o secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, está a par da investigação e deve anunciar medidas nos próximos dias. De acordo com o relatório, o governo tentou camuflar o massacre, retirando dezenas de corpos do estádio.

Guiné vive uma das ditaduras militares mais violentas do continente africano. O líder da junta que comanda o país, capitão Moussa Dadis Camara, é conhecido por sua truculência. Ele tomou o poder em dezembro do ano passado, após a morte do presidente Lansana Conte - um general que governava Guiné desde 1984.

Camara, o atual ditador, foi baleado há duas semanas por seu principal assessor, Abubakar Toumba Diakite, que fugiu. O líder da junta sobreviveu, mas foi seriamente ferido. A rádios francesas, Diakite explicou que atirou em Camara para tentar se defender do que ele acredita ser uma campanha do presidente para jogar nele a responsabilidade pelo massacre no estádio de Conacri.

O protesto que gerou a matança ocorreu em 28 de setembro e foi convocado como uma grande festa cívica pela volta da democracia. O estádio estava lotado quando um grupo de soldados entrou em campo atirando e batendo em quem encontrava pela frente.

A organização de direitos humanos Human Rights Watch calcula em 200 o número de mortos. Em novembro, uma equipe da ONU viajou para a capital de Guiné e fez um minucioso levantamento. De acordo com suas investigações, os mortos chegariam a 150. A junta militar que governa o país admite apenas 57 mortes - "todas geradas por confrontos entre soldados e bandidos", segundo comunicado oficial.

Mas as investigações reforçam a certeza de que a repressão ocorreu sem qualquer resistência. Pessoas foram achadas fuziladas debaixo dos assentos nas arquibancadas, dentro dos vestiários e nos corredores do estádio.

Enquanto civis eram baleados, mulheres foram levadas até o gramado do estádio e estupradas pelos soldados diante da multidão, enquanto recebiam socos e pontapés. A Human Rights Watch não sabe quantas mulheres teriam passado por tal humilhação de forma pública. A ONG revela ter conseguido entrevistar 28 mulheres que admitiram ter sofrido os abusos no interior do estádio.

Os relatos das vítimas são aterradores. Algumas revelam terem sido estupradas mais de uma vez por grupos de homens no gramado. Segundo os documentos da Human Rights Watch, pelo menos quatro mulheres foram baleadas após sofrerem abuso sexual. Outras ainda foram violadas com baionetas e rifles. Há até o caso de uma mulher baleada na vagina.

"Os abusos cometidos na Guiné não foram ações de soldados indisciplinados, como o governo pretende alegar", afirmou o representante da Human Rights Watch, Peter Bouckaert. "Foram ações premeditadas e a cúpula do governo sabia o que iria ocorrer", acrescentou.

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