sábado, 16 de janeiro de 2010

Crise de abstinência

20/12/2009

De Henrique Szklo

Não sei se existe sentimento mais doloroso e auto-punitivo do que, conscientemente, se abrir mão da pessoa amada para preservar a sua própria sanidade. É quase um contra-senso: arriscar perder a sanidade para preservá-la. Dói de um jeito que é difícil de descrever. A sensação de que se está nadando contra a corrente da vida, que se está promovendo um movimento anti-natural na existência humana, é próximo de uma espécie de auto-mutilação. É uma dor física que oprime o peito e queima o coração (literalmente é esta sensação) a cada lembrança dela. Fico às vezes tentando comparar com outros tipos de perda: a pessoa morrer ou simplesmente te trocar por outro ou você descobrir por alguma razão que seu amor não era na verdade grande coisa, enfim, fico tentando achar algum tipo de conforto em minha posição atual. Mas não consigo. Confesso que não. Ela, ao ler esse texto, dirá com certeza que é bem-feito pra mim, que eu mereço esse sofrimento e que eu pedi por ele. Paciência. Fiz tudo o que estava ao meu alcance. Não quer dizer que foi muita coisa, mas foi o máximo que consegui. Acho que ela tentou também. E, como eu, encontrou limitações pessoais que a impediram de enxergar além dos meus defeitos, dos meus deslizes. Sei que ela me ama como eu a amo mas sei também que ela como eu escolheu abrir mão para tentar me esquecer. Tudo isso torna nossa decisão um pouco mais difícil, mais insana. Tínhamos uma conexão muito forte. Experimentávamos o sentimento do outro, mesmo à distância. E parece que ainda acontece isso. Às vezes estou me sentindo muito tranquilo e sereno e de repente me dá uma angústia avassaladora, não sei vinda de onde. Me dá uma vontade quase que incontrolável de ligar pra ela, para saber como ela está. Ah, como eu gostaria que tudo isso não passasse de um sonho, de um pesadelo. Não sei o que é pior: não ter amado nunca ou amar loucamente, ter a certeza de que encontrou a pessoa da sua vida e no instante seguinte descobrir que este amor está fazendo mais mal do que bem, para os dois. E olha que a gente tentou. Ficamos mais tempo tentando nos entender do que vivendo efetivamente o amor. Perplexos com nosso fracasso, não realizamos como é que aquele sentimento arrebatador e transformador não teve a decência de suportar as primeiras e idiotas crises? Por que é que não conseguimos nos dar uma segunda chance? Sinto esta relação como se fosse uma droga pesada. No começo era só alegria. Depois começou a ressaca e mesmo com ela não quis abandonar o seu barato. Eu precisava sempre de uma dose a mais, mesmo sabendo que no dia seguinte viria o bode. E eu não conseguia largar, de jeito nenhum. Chegou um momento em que a droga quase nem barato dava mais. E eu não conseguia largar. E agora que larguei, estou em crise de abstinência. Dói o corpo, dói a cabeça, dói a alma. E eu já ouço de novo “bem-feito, se ferrou, agora azar o seu”. Tudo bem, eu vou superar isso também. Ela é uma pessoa extraordinária, só que não conseguimos encontrar um canal de comunicação saudável e positivo. Eu falava A e ela entendia B, e vice-versa. E isso também doía bastante. O fato de eu não ter nada contra ela também dificulta ainda mais a situação. Se eu pudesse sentir raiva, pelo menos, eu poderia usar isso como forma de auxiliar no processo de esquecimento. Mas eu não tenho nada que a desabone. Ela não é perfeita, não é exatamente uma pessoa simples e permeável, mas nada do que ela me fez ou disse de desagradável ficou marcado em minha memória. Não guardo mágoas. Só sinto que eu estava definhando, perdendo a minha sanidade, que já não é grande coisa. Nossa, como eu queria ter alguma razão lógica para esquecer essa mulher de uma vez! Meus sentimentos por ela foram quase que patológicos. Fui obssessivo, confesso. É, talvez ela tenha razão. Talvez eu tenha mesmo estragado tudo com minhas manias, meu egoismo e minha falta de flexibilidade. Talvez. Mas se o amor fosse forte o suficiente, isso não seria exatamente um impeditivo. Não sou canalha, pelo menos penso que não. Acho que mereço que a pessoa que me ame confie em mim o suficiente quando digo que estou me esforçando para mudar. Mas também se aquilo que sou hoje não é satisfatório para ela, eu realmente não posso fazer nada. Acho que se você precisa que a outra pessoa mude para que você possa amá-la, então algo está fora de lugar. Não me arrependo de nada do que fiz, já que quando fiz era o que eu achava que deveria fazer. E gostaria o quanto antes de transformar este amor pela mulher, por um amor pela pessoa. Mesmo que a gente nunca mais se veja. Na verdade, é isso que ela queria, faz tempo. Ela desistiu de mim como homem bem antes de eu desistir dela como mulher. Ela queria que fôssemos amigos. Acho até que seria possível, mas não de uma hora para a outra. Passar de amor da vida para amigo num estalar de dedos não me parece razoável. Quem sabe um dia a gente consiga. Eu sei que enchi muito o saco dela com esta história, cobrei mesmo que a gente voltasse, mas ela jamais abriu a guarda. Mesmo assumindo nas entrelinhas que ainda me amava, não conseguia superar as barreiras que de alguma forma provoquei nela. Ou provocamos os dois, sei lá. Paciência. Se não era para ser, não era para ser. Mas mesmo assim, acredito que o sentimento não irá morrer. Só irá mudar de forma. Onde quer que ela esteja, vou sempre torcer por ela, sempre desejar que seja muito feliz, pois ela merece. E se acreditasse em deus, também rezaria por ela. Pensando bem, por ela eu até aceito a possibilidade de acreditar na efetividade de uma boa e devotada oração. E que a nossa dor se dilua o mais rápido possível e nos permita seguir em frente em nossas vidas com o coração aberto para outros amores; tranquilos, equilibrados e harmônicos. Amém.
Henrique é cronista do Blônicas e está com dor de cotovelo.


Escrito por Blônicas.. às 00h35
[(17) Vários falando! Que beleza!]

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