sábado, 16 de janeiro de 2010

Meia culpa (confissões de um egoísta)

16/12/2009


De Henrique Szklo

De repente me dei conta que o caminho que escolhi na vida ou que a vida escolheu para mim está totalmente errado. Não que pessoas importantes na minha vida não tivessem tentado me alertar, mas por alguma razão eu não dava ouvidos nem enxergava a coisa daquela maneira. É claro que eu acabei me dando conta de tudo por causa de uma grande perda. Precisei perder o grande amor da minha vida para perceber o que estava fazendo comigo e com os outros. Na verdade eu não me sinto culpado, até porque a culpa só iria me empurrar ainda mais para o fundo do poço. Não me sinto culpado, mas sinto arrependimento que é um sentimento muito mais aconchegante e conciliador. O arrependimento faz com que a gente se dê chance para mudar. A culpa só machuca. Fiz o melhor que pude enquanto não tinha consciência. Eu sei que pode parecer uma desculpa esfarrapada e talvez até seja mesmo. Mas é a maneira que estou encontrando de dar a volta por cima e definir um novo rumo pra minha vida. Vou me expôr aqui neste texto talvez como nunca tenha feito em minha vida. Mas acho que esse expurgo também é libertador de alguma maneira que eu não sei explicar. Por razões diversas que agora talvez não seja o caso determinar, acabei por me tornar uma pessoa muito egoísta. Estou quase com 50 anos e nunca me interessei muito pelas outras pessoas. Tirando os meus filhos, por quem fiz um esforço descomunal, e minha ex-mulher, a quem amo como pessoa até hoje, nunca dei muita bola pra ninguém além de mim mesmo. É claro que por causa disso a minha vida tem sido muito mais difícil do que seria se eu fosse um pouco mais generoso. Acho, entretanto, que sou uma boa pessoa. Não desejo mal a ninguém e sou muito preocupado com ética e honestidade. Eu sei, isso não me redime dessa egotrip, mas, pelo menos me dá esperança de que eu possa encontrar dentro de mim mesmo a capacidade de mudar. Sempre fui um cara solitário e aprendi a viver assim. Muita gente me diz que não entende porque uma pessoa com meu talento está sempre no desvio, sempre com dificuldades financeiras e de relacionamento. Bem, agora eu entendi claramente. O ser humano é um ser social e eu tentei desvirtuar a nossa natureza, criando um mundo particular, talvez por defesa ou sei lá o que. E mesmo vivendo uma vida voltada pra mim mesmo, sempre quiz, como todo mundo, ser amado. Acho que até sou amado por uma ou outra pessoa, mas eu sempre criei um muro entre mim e os outros que impede as pessoas de se manifestarem. Agora eu percebi que para ser amado como eu gostaria eu teria de necessariamente dar a contrapartida de amor e atenção aos outros. Não como uma moeda de troca, mas como um princípio básico da vida. O problema é que eu não sei fazer isso. Não aprendi a fazer. Nem sei como começar. Acredito que posso, que tenho capacidade para corrigir meu rumo, mas ainda não sei bem que caminho tomar. Porque não vai adiantar nada eu fingir que estou interessado, porque não estaria mudando nada, apenas me aproveitando da consciência que tomei em benefício próprio. Eu quero, mais que tudo, sentir vontade de ajudar. Uma vontade real, legítima. Quero aprender a me interessar pelos outros e poder assim fazer essa troca tão importante e fundamental em nossas vidas. Acho que vou pra terapia. Outra desvantagem de ficar olhando só para o meu umbigo é que meus problemas crescem demais na minha cabeça. Não penso em outra coisa, é claro que eles se alimentam de minhas neuroses e ficam gigantescos. É insuportável neste momento ser eu, ser quem sou, viver o que estou vivendo. Quero me libertar desta prisão que eu mesmo construi em volta de mim mesmo. Não posso sequer exigir de ninguém que me ajude já que nunca dei contrapartida. Só posso esperar que o universo seja generoso comigo e me aponte os caminhos a seguir e me perdoe por não ter percebido tudo isso antes. Uma segunda chance todo mundo merece, é o que dizem. Àqueles que de alguma forma foram afetados pelo meu comportamento errático, por favor, me perdoem. Espero algum dia poder corrigir esses equívocos desnecessários. Hoje acredito que o meu destino é ser um professor, um tipo de professor que a gente não vê muito por aí, um professor inspirador, que motive, que incentive, que ajude os seus alunos a pensar por si mesmos e a descobrirem dentro de suas vidas um caminho melhor e mais iluminado. E sei que para isso terei de me dedicar, me esforçar e me desdobrar. Talvez seja o primeiro passo para conseguir reverter esse caminho equivocado que trilhei até hoje. Quem sabe eu ainda tenha uma chance de provar às pessoas que eu me importo com elas e que elas podem contar comigo para o que precisarem. Seja como for, essa consciência me alivia, me dá esperanças e alento. Um primeiro passo já está dado.

Henrique é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas.. às 11h56
[(10) Vários falando! Que beleza!]

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