domingo, 3 de janeiro de 2010

Reinaldo Azevedo

Aos estudantes da São Francisco, com açúcar, afeto e livros a mancheias

domingo, 9 de março de 2008 7:19

Já publiquei já aqui um post sobre o debate de que participei, na sexta à noite, na Faculdade de Direito da USP (a São Francisco), a convite da diretoria do Centro Acadêmico XI de Agosto. Falamos sobre Cuba e as perspectivas da esquerda na América Latina. Meu oponente ali — como em quase tudo, suponho — era o ex-petista Ivan Valente (SP), hoje deputado federal pelo PSOL.
Impossível reproduzir aqui um debate de três horas, é claro. Mas, como vou dizer?, a coisa foi animada, hehe. Eu fico sempre muito espantado com a sem-cerimônia com que as esquerdas apóiam seus ditadores e assassinos. Não foi diferente com Valente. Afinal, defender Fidel Castro, demonstrei com números (que ele, engenheiro e matemático, não pôde contestar), corresponde a alinhar-se com alguém que consegue ser 3.108 vezes mais assassino do que os militares brasileiros. A conta é simples:
- somando-se os 17 mil mortos na ilha e os 78 mil que morreram tentando fugir, o regime de Fidel responde por 95 mil óbitos;
- dada uma população de 13 milhões, considerando-se os dois milhões de exilados, Fidel matou 730,77 pessoas por 100 mil habitantes (considerei a população atual de Cuba);
- os milicos brasileiros mataram 424 pessoas (muitas em combate, é bom que se diga) — ou 0,235 por cem mil (população atual do Brasil);
- divida 730,77 por 0,235; você tem a conta.
- Ah, sim: se Fidel tivesse matado um décimo do que matou, ele seria apenas 310 vezes mais assassino — se é que Ivan Valente me entende…
Não obstante, Fidel tem a irrestrita admiração das nossas esquerdas — claro, claro, ele cometeu alguns “exageros”, mas os nossos militares são considerados uns gorilas. Novos esquerdistas ganharam pensões e indenizações porque “perseguidos” pela ditadura. Alguns são ainda fãs de Cuba! O Brasil costuma ser um abismo da lógica. Em tempo: mandei às favas e ao fogo do inferno, ali na faculdade e como sempre, todos os ditadores de direita: Pinochet, os nossos, os argentinos… Valente abriu seu peito ao Coma Andante. Numa antevisão fantasmagórica, disse que os estudantes ainda andariam por aí com uma camiseta estampando o rosto de Fidel. Riram dele a valer.
Levar tais números a um debate provoca um certo choque. Ainda há alguns gatos pingados que são radicais de esquerda, mesmo na São Francisco — minoria, mas são. Entreguei ao Centro Acadêmico uma lista de livros que poderia ajudar a entender alguns dos temas que discutíamos ali. Durante as minhas intervenções, citei outros tantos. Então Ivan, muito valente, tirou da algibeira uma acusação interessante: “Acho que o Reinaldo quer ser intelectual; eu sou um militante”. Para ele, os livros que eu citava — e convidei os alunos a consultá-los — eram só uma forma de tentar enganar os estudantes, de lhes diminuir o entusiasmo militante e a luta por um mundo melhor. Disse isso com a energia característica… Uns 10 ou 12 que estavam ali como claque aplaudiram-no com entusiasmo. Uma lourinha o fez com tal energia, que, quero crer, se eu jogasse uns livros à sua frente, ela os incendiaria: um verdadeiro auto de fé “em nome do povo”.
Aí Valente disse que direita boa já não há mais, não. E que intelectuais mesmo eram Sérgio Buarque de Holanda, Gilberto Freyre, Antonio Candido… Falei para ele escolher um desses, ou todos, para debater. Pedi que resumisse ali a tese central de Raízes do Brasil — e o dispensei da tarefa em seguida, porque a minha crueldade tem limites. E ele aproveitou, então, é claro, para atacar a VEJA, a imprensa burguesa, que só pensa nos ricos e é financiada pelo capital privado por meio de anúncios. Para o Valente, imprensa independente deve ser aquela financiada com dinheiro público e das estatais… Dizer a respeito o quê? No desespero, sacou o Jorgibúxi. “A VEJA defende o Jorgíbúxi”. E eu: “É mentira. A maioria das reportagens de VEJA traz críticas a Bush”. Mas eu estava disposto a lhe manter o furor militante: “Não, deputado, eu (ênfase no “eu”) defendo Bush; a VEJA, não. Eu defendo a guerra do Iraque. A VEJA não é de direita, mas eu sou”.
Valente pareceu experimentar a epifania: “Vocês estão vendo? Ele é de direita! Ele é Jorge Bush!”. Esperava que a platéia urrasse em delírio. Mas nada… E a loirinha, aquela, repetia: “De direita! Jorge Bush!”, como na igreja da bispa. E falava ali o procurador da hora do regime soviético e seus 35 milhões de mortos; do regime chinês e seus 70 milhões de mortos; do regime cambojano e seus três milhões de mortos; do regime cubano e seus 95 mil mortos. Falava o representante do partido que tem entre seus quadros, sei lá se filiado ou não, o italiano Achille Lollo, um terrorista italiano que, em 1973, despejou gasolina sob a porta de um apartamento, na Itália, onde estavam um gari, sua mulher e seis filhos. Ateou fogo. Morreram uma criança de 8 anos e seu irmão mais velho, de 22. O gari era de um partido neofascista. Como Lollo não gostava do fascismo, então ele resolveu incendiar crianças. Um verdadeiro humanista!!!
É claro que tive de refrescar a memória do deputado. Também levei aos estudantes fotos daquele gigante moral e de uma de suas vítimas. Será que fui indelicado?
O deputado acabou se envolvendo num bate-boca com um aluno de mestrado, passível, entendo, de desdobramentos jurídicos. No auge da confusão (Tio Rei, nessa hora, autografava um Contra O Consenso), um garoto magrinho, nervosíssimo, tentava “evacuar o recinto”, tangendo, com os braços, seus colegas, que insistiram em ficar na sala, sim. Uma parte para ver o qüiproquó. E outra porque queria falar comigo. O debate terminou às 22h30; mas saí de lá depois da meia-noite, num papo com rapazes e moças do balacobaco. Sabem das coisas.
Falei da meia-dúzia de gatos pingados radicais? Sim. Num auditório lotado, não eram mais do que 10 ou 12. A maioria esmagadora dos estudantes da São Francisco quer é democracia; quer é estado de direito; quer é liberdade de expressão; quer é imprensa livre. Não! Eles não concordam com tudo o que diz o Reinaldão; com tudo o que sai publicado na tal “imprensa burguesa”, mas estão certos de que a democracia é o único regime que pode conciliar liberdade com justiça. Nem as serpentes que tentam encantar jovens também ali fizeram com que aquela faculdade, que está inscrita na história do Brasil, renunciasse à sua traetória de luta em favor do estado democrático e de direito.
E fiz um convite aos presentes, que, estou certo, será seguido: “Não invadam a reitoria. Invadam a biblioteca”. Acho que eles farão isso. Uns dois ou três talvez continuem a queimar livros, ainda que metaforicamente. Mas o fato é que eles perderam.
PS: Eu lhes juro: quando fui militante de esquerda, entre 1975 e 1982, só eram respeitadas as pessoas que liam muito. Era uma exigência para a militância estudantil. Havia até a caricatura do famoso “livro embaixo do braço”. O Apedeuta acabou com isso. Os livros passaram a ser hostilizados. O que importa é ter titica na cabeça e um microfone na mão. E, claro, falar em nome da “justiça social”.
“Ó justiça social! Quantos crimes se cometem em teu nome!”, se me permitem parafrasear uma mocinha que perdeu a cabeça para os jacobinos.

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