domingo, 14 de março de 2010

Déficit público

Déficit público

Por Antonio Prata

“Imagine que você tem uma conta corrente no coração de cada pessoa com quem se relaciona. Cada vez que você faz uma coisa boa para ela, ganha crédito. Cada vez que ela faz algo para você, realiza um débito. Como está seu saldo nessas contas?”. Assim falava o homem da TV, uma espécie de palestrante motivacional. Ou desmotivacional, pois mal comecei a vislumbrar meus extratos nos corações alheios, percebi que estava próximo à bancarrota.
Houve um tempo em que eu tinha tempo de sobra, e gastava-o ao meu bel prazer. Uma noite, saía com os amigos. Na outra, encontrava a namorada. Um conhecido lançava um livro? Lá ia eu, se estivesse afim. Era feliz e não sabia: vivia no azul nos peitos de todo mundo e, acredito, tinha até pequenos créditos por aí.
Acho que foi lá por 2004, quando comecei a trabalhar muito, que os negócios desandaram. Sem tempo para nada, passei a gastar meu saldo: “Pedrão, valeu pelo convite, mas tenho que terminar a crônica!”; “Nina, adoraria ir, mas é a última semana aqui do roteiro”; “Mãe, não consigo almoçar esse domingo, tenho que agilizar o romance”. Hoje, para onde quer que eu olhe, estou no cheque especial.
Sábado passado, dois amigos me chamaram para tomar um chope. Antigamente, escolheria. Hoje, calculo: qual deles, caso eu não encontre, mandará nossa amizade para o SERASA? O Pedro foi pai já faz seis meses e eu ainda não conheço a filha, mas o Felipe deu uma festa de trinta anos em outubro e eu não fui. E aí?
Caro leitor, não quero passar a ideia, muitíssimo equivocada, de que sou uma pessoa blasé e reclusa, que prefere a companhia dos livros a das pessoas. Gosto dos outros. Sartre que me desculpe, mas o inferno sou eu mesmo que, com a minha inépcia no equilíbrio entre trabalho, amor e amizades, acabo me endividando todo. E o problema das grandes dívidas é que, a partir de uma certa quantia, você já não consegue amortizá-las. O que faz, então? Aumenta os juros, em forma de promessas. Foi o que eu fiz com o Pedro, quando decidi ir tomar chope com o Felipe: “Queridão, vamos fazer melhor: esquece o chope, vem almoçar em casa, domingo. Vou assar um leitão para você, sua mulher e a filhota!”.
O almoço foi ótimo. Tá pago, então? Com Pedro, tá. O problema é que, para gastar o domingo com ele, eu me afundei mais ainda no vermelho com minha mãe, que havia me chamado para almoçar, com a minha mulher, com quem tinha combinado de ir ao teatro e com a Vivi, editora do Metrópole, a quem deveria entregar essa coluna segunda, mas só a receberá na terça. Tudo bem, Vivi? Não fica brava. Prometo que, na outra semana, te entrego sexta de manhã! (Se bem que combinei de jantar com o Rodrigo, na quinta. Será que eu cancelo? De novo?! E agora?!).

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