domingo, 14 de março de 2010

Mercado de valores emocionais

Blog do Léo Coutinho


Mercado de valores emocionais


Há no Brasil um ditado muito cafajeste que é passado de pai pra filho com todo chiste da irresponsabilidade – e comigo não foi diferente. Desde pequeno ouço meu pai dizer: - “Meu filho, passar mulher para trás é fácil; difícil é passar pra frente”. Se dependesse da razão, o ditado estaria absolutamente exato. Mas nem sempre é assim: na maioria das vezes nesses assuntos quem manda é o coração, anulando o dito.
A menos que o distinto não seja chegado a banhos diários, com o mínimo de frieza e cálculo ele poderá apanhar mulher feito desconto em fim de feira. E, da mesma maneira fria e calculada que pegar, poderá se livrar delas assim que enjoar. Basta observar o comportamento humano.

É curioso como sempre corremos atrás daquilo que nos foge. Talvez venha da luta pela sobrevivência, pela garantia de reservas, de ter um pouco guardado para o inverno; mas fato é que costumamos desprezar – ou no mínimo descuidar – de tudo aquilo que está garantido.

A casa dos seus sonhos, quando conquistada, passa a ser realidade e perde um pouco do encanto. Então você vai querer botar uma obra de arte dentro dela, que vai emocionar no começo, mas não que retarde a vontade de ter uma segunda – que você vai comprar, e assim por diante, até que, depois de cinquenta anos, você vai olhar para a primeira e descobrir que não precisava de nenhuma das demais.
Afastando a modéstia confesso que gostei da metáfora artístico-imobiliária do parágrafo anterior, apesar dela ter desviado meu raciocínio. Eu ia dizendo que a gente costuma buscar o que nos foge e descuidar do que está garantido, para emendar que, usando a razão, seria muito mais fácil simular desinteresse para conquistar uma menina e, depois disso, em caso de saturação, cobri-la de mimos e atenção exagerada até que ela estivesse completamente sufocada e fugisse para respirar em outra praça, liberando a sua para uma nova presa. Perfeito? Só para os canalhas.
Os românticos podem até aprender com os erros, mas nunca vão deixar a dureza da razão sobrepor-se aos caprichos do coração. As pessoas românticas quando se apaixonam ficam aflitas para dividir toda a maravilha do sentimento com o par, e se, com receio de parecerem frívolas ou loucas elas decidem adiar a revelação, o sofrimento é enorme, desregula a pressão arterial, intestino, apetite, sono, sede, tudo.
Por essas e outras é que os seres calculistas parecem tão serenos, equilibrados, civilizados: eles sofrem menos. Mas a vingança do lado emotivo da humanidade é que, em compensação, nós amamos mais e com mais intensidade.
Quando uma paixão acontece é muito comum que ela esteja desequilibrada, e que siga assim, adernando, feito barco em início de cruzeiro, ora para um bordo, ora para outro, até encontrar seu prumo e ponto de equilíbrio, tornando o passeio delicioso para os tripulantes. Há quem acredite que as intempéries do começo contribuem muito para o entrosamento da galera e derivam em maior estabilidade para enfrentar os mares grossos e nevoeiros da vida. Pode ser. Mas só vou concordar com quem aceitar que nada pode ser mais bonito do que um casal que se apaixona e se entrega à primeira vista. Essas paixões podem até durar pouco, e é bom que seja assim: caso contrário eliminariam a vida na Terra, matando toda a humanidade de inveja.


Enviado pela Deb!

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