domingo, 14 de março de 2010

O Dia da Mulher e a publicidade ''Devassa''

O Dia da Mulher e a publicidade ''Devassa''

Pedro Estevam Serrano - 11/03/2010

O episódio da proibição da propaganda da cerveja Devassa levou-me a algumas reflexões sobre o comportamento da nossa sociedade e reforçou em mim a ideia de que vivemos um período de excessiva invasão do espaço de realização das liberdades individuais pelos mecanismos de poder social.
Relutei um pouco, internamente, a adentrar no tema, pois, nesse debate eivado de cunho autoritário e pretensamente moralizador, corria um risco considerável de ser mal interpretado e, por conseguinte, ser rotulado por algo que não sou. No entanto, veio a semana da mulher, e passei a avaliar como necessária uma reflexão do problema, como uma maneira de prestar uma homenagem a elas.
O primeiro pensamento que me acometeu foi o do uso inadvertido do comportamento politicamente correto. Nascida com propósito o de reduzir preconceitos, preservar o outro e percebê-lo como igual e próximo a mim, à cultura do politicamente correto tem faltado o ingrediente da razoabilidade. Muitas vezes, esse excesso leva ao efeito contrário, reforçando o preconceito ou criando novas formas de intolerância. Tolerância implica leveza, humor, afeto e, principalmente, liberdade. Não se constrói a tolerância democrática pela sisudez raivosa. A tolerância habita mais o território do desejo libertador que o da cultura repressiva.
No caso da propaganda da Devassa, em que a socialite americana Paris Hilton vestida esfrega uma garrafa em seu corpo, a pretexto de proteger a imagem da mulher e evitar um forte apelo sexual, o Conar (Conselho de Autorregulamentação Publicitária) decidiu suspender a veiculação da campanha.
O contexto da decisão é o de inúmeras outras propagandas de cerveja, biquínis, refrigerantes, carros etc com imagens mais sugestivas do ponto de vista da sensualidade do que a da propaganda em questão. A constante sexualidade que atravessa os eventos da Fashion Week e do Carnaval está autorizada —e, logo, não é sexismo— porque se dá sob as fendas da alta costura ou da transmissão televisiva? Creio que o equívoco é palpitante.
Mas ainda que consideremos só o comercial proibido, cabe a pergunta: Por que é um desrespeito à mulher a expressão corporal do desejo? Nosso órgão de propaganda, hoje mais próximo de uma patrulha sexual conservadora, pode nos responder sem subterfúgios? E a Secretaria Especial dos Direitos da Mulher?
O inquietante engano é pressupor que à mulher só deve ser permitido expressar a sexualidade passivamente ou dentro das quatro paredes. Ou que, ao adotar uma postura puramente sexual, ela se diminui, transformando-se em objeto, como se tudo que é digno no ser humano se localiza em seu cérebro ou no esforço para puramente sobreviver.
A questão de gênero se impõe, nessa perspectiva, como obrigação de um comportamento, digamos, mais recatado. Além disso, as propagandas de cervejas que veiculam mulheres sensuais agindo a reboque da sedução dos homens, de forma passiva, seguem autorizadas, mas o comercial com uma mulher que tem atitude sensual, desvinculada da iniciativa masculina, é proibido. Às mulheres, não é deferida a possibilidade de provocar o desejo em homens, e por que não dizer?, de outras mulheres também.
Há uma correlação direta entre o exercício da liberdade corporal pela mulher e a qualificação que a sociedade lhe dá: quanto maior o uso de sua liberdade corporal, mais próxima da imagem pejorativa ela está. Com os homens, o fenômeno é inverso: quanto maior a liberdade corporal, mais homem ele é. Em outras palavras, a liberdade de uso do próprio corpo ainda é terreno de domínio machista. O homem que busca provocar o afeto feminino é um sedutor, a mulher que expressa sua sensualidade pela provocação do desejo sexual é uma pessoa, no mínimo, desprovida de bons modos, vulgar, incontida, mero objeto dos desejos masculinos!
Se fazer publicidade usando da imagem da mulher como provocadora de desejos é um desrespeito a imagem do gênero feminino, cabe-nos perguntar qual mulher é desrespeitada pela propaganda? Aquela que só deve provocar desejos no marido-dono? Aquela que só existe para os livros, para a maternidade e para o trabalho?
Em última análise, prevalece fortemente o entendimento de que as mulheres não podem ser devassas, não podem ter atitude de expressão sexual. O corpo das mulheres vira, nesse sentido, novamente um objeto. Um objeto de domínio social. Uma burka simbólica construída pelo bem pensar supostamente feminista e politicamente correto e, em verdade, sexualmente repressor, que confunde manifestação ativa da sedução feminina com mulher-objeto. Afinal, qual o problema em ser objeto do desejo do sexo oposto ou de pessoas do mesmo sexo? Qual o grande pecado em provocar este desejo? Convenhamos, esse feminismo assexuado é, antes de tudo, chato!
Salutar também verificar que a origem da palavra “devassa” é obscura, embora uma de suas acepções seja vulgarizar, no sentido de tornar público. Há ainda que verificar a etimologia da palavra “libertinagem”, um dos sinônimos para “devassa”. O termo vem do latim “líber”, de onde se origina a palavra “liberdade” e que significa “que pode dispor de sua pessoa, que não está sujeito a algum senhor”. Talvez o nome mais adequado para a cerveja fosse “Libertina”, mas não foi o nome do produto que foi censurado.
Na semana em que se comemora o Dia da Mulher, valeria um manifesto de revolta contra a decisão de censura do Conar. Uma espécie de “queima de sutiãs revisitada”. Pois o exercício dos direitos da mulher passa, necessariamente, pela liberdade de expressão corporal e pela libertação do controle do próprio corpo por outrem. A meu ver, esta seria a melhor forma de comemorar o Dia da Mulher em 2010.

Um comentário:

Beto disse...

eu creio que a grita não foi no sentido de censurar a propaganda, mas o de evitar que esta reiterasse ou reforçasse o sentido socialmente convencionado de que a mulher é um objeto [como a cerveja] que serve para ser consumida [usada] e ser jogada fora. a mensagem da propaganda não propõe que a mulher [assim como o homem] deve ter o direito e a liberdade de ter uma vida sexualmente ativa e saudável.