domingo, 14 de março de 2010

Porandubas Políticas - Guadêncio Torquato

Encenação

Abro a coluna, hoje, com a encenação da Paixão de Cristo numa cidadezinha da Paraíba. O dono do circo, em passagem pela cidade, resolveu encenar a Paixão de Cristo na sexta-feira santa. Elenco escolhido dentre os moradores e no papel de Cristo, o cara mais gato da cidade. Ensaios de vento em popa. Às vésperas do evento, o dono do circo soube que 'Jesus' estava de caso com sua mulher. Furioso, deu-se conta que não podia fazer escândalo sob pena de perder o investimento. Bolou uma maneira. Comunicou ao elenco que iria participar fazendo o papel do 'centurião'.
- Como ? - reclamaram - Você não ensaiou !
- Não é preciso ensaiar, porque centurião não fala !
O elenco teve que aceitar. Dono é dono. Chegou o grande dia. Cidade em peso compareceu. No momento mais solene, a plateia chorosa em profundo silêncio. Jesus carregando a cruz ... e o 'centurião' começa a dar-lhe chicotadas.
- Oxente, cabra, tá machucando ! Reclamou Jesus, em voz baixa.
- É pra dar mais veracidade à cena, devolveu o centurião.
E tome mais chicotada. Chicote comendo solto no lombo do infeliz. Até que Jesus enfureceu-se, largou a cruz no chão, puxou uma peixeira e partiu pra cima do centurião :
- Vem, desgraçado ! Vem cá que eu vou te ensinar a não bater num indefeso !
O centurião correndo, Jesus com a peixeira correndo atrás, e a plateia em delírio gritando :
- É isso aí ! Fura ele, Jesus ! Fura, que aqui é a Paraíba, não é Jerusalém, não !

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