domingo, 14 de março de 2010

Roberto da Matta

Intimidade de coluna - ou quando você sabe que está (bem) casado?
Roberto da Matta

Para o Aloysio



A pergunta tem a ver com a humilde instituição do matrimônio, entre nós concebido como uma escolha amorosa monogâmica ou exclusiva. O motivo tem a ver com uma intimidade: esqueci o meu quadragésimo oitavo aniversário de casamento - fiz, valha-me Deus, Bodas de Granito! - no dia 20 do corrente.

Constatado o fato, fui ao encontro da minha turma, todos pertencentes à classe denominada da "melhor idade" por quem não chegou lá e só pode estar querendo nos sacanear. Afinal, entre outras coisas, e como dizia uma velha amiga americana, "a velhice não é pra frescos". Diante dos setentões casados e protegidos pelo Aço, Cristal, Opala, Prata, Pinho, Cedro, Coral, Carvalho e Pérola de suas bodas, questionei: quando uma pessoa sabe que está bem casada?

O Jorginho, que bebe bem e sofre de artrite, soltou: "Sei que estou bem casado pela tesão. Imagine, se isso é possível, que até hoje eu bato um bolão com a Matilda. Não digo que dou coitos homéricos, mas faço amor... Essa Matilda gordalhona e feia, à noite, na cama - disse ele com os olhos misteriosos dos velhos - fica linda!" Já o Silvio sacudiu a cabeça e, trêmulo pelo Parkinson, foi curto e enfático: "Casamento bom dura pelas comidas e pela limpeza da casa!" De um outro lado da mesa, Israel, que é cauteloso no beber e falar, matutou: "O sujeito bem casado constrói. Ama e respeita a esposa, faz filhos, sustenta a casa com seu trabalho, espalha seus genes e nome pelo mundo. Seus descendentes são os frutos do seu bom casamento." E completou, sereno e bíblico, propondo um brinde: "Meu caro amigo, você esqueceu a data, não o casamento. E esqueceu porque seu casório é feito de bom e indestrutível granito. Esse estofo dos sonhos humanos." O grupo baixou a cabeça e ficou tão emocionado quanto eu, pobre cronista, com um casório marcado por pedra.

Meus amigos estavam certos. Casamentos - como dizia um grande antropólogo inglês, E.R. Leach - são feitos de favores sexuais, de serviços domésticos e de capacidade de reprodução. Ou melhor, acasalamento, comida e descendência implicam buscar pessoas e coisas fora de nós. São os apaixonados que inventam o amor ou é o amor que já existia antes que faz a paixão? A comida leva ao sexo (o peixe morre pela boca), a reprodução conduz ao casamento; ambos, à manutenção da casa, realizada por uma mulher que "saiba lavar e cozinhar e que de manhã cedo nos acorde na hora de trabalhar", o famoso e tão decantado modelo Emília, samba de Wilson Batista e Haroldo Lobo, de 1942.

Na biografia de um casório, o casal de amantes que goza, e diz que ama para além do tempo, compensa o lado efêmero e intangível do gozo sensual com juras complementares, pois deseja que seu amor tenha um gosto de eternidade. Por causa disso, o par vai da cama para o altar e, numa cerimônia formal, transforma-se em marido e mulher. No rito matrimonial, a sexualidade é recalcada; salienta-se a obediência às regras da sociedade. Agora, como nubentes legitimados por suas famílias e pelo grupo, realizam um ato com consequências jurídicas, conjugando o amor fugaz ao sal do realismo. Na cama, o amor é ilimitado; no altar solene das bodas, porém, a morte substitui a eternidade do amor erótico; e uma eventual pobreza e a certeza da doença mostram como a viagem que estão prestes a realizar não é tão simples. Não digo que é impossível, mas é trabalhosa e, como tudo que é humano, exige constante paciência e generosa compreensão. Obriga a recomeçar em cada aurora e anoitecer.

Volto à intimidade. Fiz 48 anos de casado e não me lembrei até que uma velha empregada da família telefonou me dando parabéns. O que é o esquecimento? Tento uma resposta: a coisa está tão dentro de você e você tão dentro dela que os limites se acabam. Só temos noção do que somos quando nos confrontamos com o que não somos. Dizem que existem dois tipos de homens casados: o "caixão branco" e o "cabaré de fronteira". O primeiro, recusaria a Marilyn Monroe; o segundo traça quem anda de saia e não é padre ou escocês e mesmo assim dizem que há controvérsias. A maioria, declara o bom senso higienizador, fica entre os dois, esperando a ocasião que levará ao enterro do marido fiel e ao nascimento do malandrão no melhor estilo Quincas Berro d"Água, o rei dos lupanares e senhor do Pelourinho, de um saudosíssimo Jorge Amado. Todos temos caixões e fronteiras.

Tive sorte. Às vezes falhava o lado da casa ou da rotina. Mas o amor permaneceu intacto. Minha mulher também não se lembrou da data. Pela primeira vez, testemunhei esse esquecimento de sua parte. Logo nessa parte da vida - aniversários, festas, presentes e nomes que tanto definem o seu lugar como a eventual tecelã dos elos da presença e da saudade, construídos no coração. Paciência, afinal eu tenho muito do granito dessas bodas.





Milagre na coluna?

Minha turma ficou feliz com a coluna da semana passada quando refleti, um tanto assustado, mas feliz, sobre os meus 48 anos de casamento: as minhas Bodas de Granito. Como, perguntei a quem pensava em ter uma vida curta de artista, herói ou mártir (como estava em moda na minha geração que viveu a 2ª Grande Guerra Mundial de 1939 a 1945), pode ter vivido tanto? Como é que eu consegui não só ser um pai razoável, mas também um bom avô? E digo isso, queridos leitores, sem problemas, porque o laço entre pais e filhos não se resolve, mas o de avô e neto, como o de tio e sobrinho, têm a doçura da ausência das obrigações de educar e impor limites. Não há nos Dez Mandamentos nenhuma referência a "honrar os avós" porque, em primeiro lugar, eles não fazem os netos no sentido bíblico e corrente no termo. Uma vez, Celeste, minha mulher, remarcou, ao observar minha paciência com os netos: "Como pai sua nota foi zero. Mas dou-lhe dez como avô. Passou com média cinco!"



Neste último fim de semana, estava sentado no botequim de costume e o mais velho da turma que prefere o anonimato falou dos seus 50 anos de casamento. Contou mais ou menos o seguinte:

"Quando fiz as tais Bodas de Ouro ? as de Granito são muito mais bacanas ?, minha mulher estava muito doente. Só o seu corpo permanecia comigo. O seu espírito fugia a cada hora e a cada dia como a luz some quando chega o negrume da noite. Deitei-me ao seu lado no dia das bodas e rememorei a nossa primeira noite de casado que, como você bem sabe, a gente chamava falando baixinho de "noite de núpcias". Aquele aspirado encontro no qual, finalmente, o amor ia se defrontar livre e abertamente com o sexo e com ele ter um papo cara a cara, uma conversa de homem para mulher, muito mais complicada do que as nossas tolas discussões de homem para homem sobre política e futebol. Vi, como num filme, a chegada ao apartamento que foi o nosso primeiro lar porque não tinha dinheiro para uma viagem de lua de mel. Chovia muito e o edifício não tinha portaria nem elevador, de modo que eu, rapidinho, levei as malas para o quarto tomado, um tanto impudicamente, pela cama de casal vestida de linho branco e por um imenso guarda-roupa, ambos presentes de papai. Um tio querido e sua esposa nos receberam com discrição e cortesia. Mas quando estava para "subir" ? o amor eleva, não é mesmo? ?, titio me chamou e me obrigou a tomar um cálice de conhaque para "tirar o nervoso". Brindamos ao que estava por vir e eu subi resfolegante os degraus que me separavam da tão esperada noite nupcial. Logo abençoamos nossa casa de sexo com amor, tornando-a um lar. Não posso me esquecer da visão encantada de minha jovem esposa com a famosa "camisola do dia" diante do marido que ia tirando a roupa com aquela impaciência de toda primeira vez.

"Hoje, vivendo como vivo ? completou meu companheiro ?, eu pediria a Deus apenas uma graça. A de ver minha noiva ao meu lado, jovem e linda como naquela noite encantada. Não quero voltar a ser jovem, ser jovem é um saco. Eu queria, isso sim, vê-la jovem ao meu lado para poder admirá-la como só os velhos sabem fazer quando se confrontam com a beleza da juventude."

Uma semana depois, encontrei meu amigo radiante de felicidade.

"Aconteceu!" ? disse ele. "Minha mulher dormia esquecida e eu, insone, saí do quarto e tomei uma taça de vinho. Estava tão triste quanto minha vida. Ao voltar para a quarto, houve um apagão. Acho que foi milagre. Quando a luz voltou, lá estava ela, jovem e, assim aparecida, sorria e me deixava ver, sem pudor, o corpo renovado. Ajoelhei-me, como faz quem sabe que o amor é uma remissão, e percorri a planície, as montanhas, os prados e os vales. Bebi ? disse ele sorvendo um gole de uísque com soda ? naquela fonte que desce aquele monte, como canta, ao lado de todos os poetas, Raul Seixas. Ouvi o vento ruidoso do amor sacudindo a namorada. Reencontrei o sexo no amor ou foi uma ilusão? Diga-me lá você, que é doutor, escreve livros, fala de tudo e morou com índios e americanos?"



Foi um surto, respondi invejoso. Como a pressão arterial do presidente, deve ter sido um pique motivado por desejos reprimidos. Há coincidências negativas e positivas. Quando são extraordinariamente gratificantes, falamos em milagre e graça. Racionalmente, eu penso que o vinho alterou sua consciência. Simbolicamente, acho que foi um trabalho da saudade. A saudade harmoniza ilusão e realidade. Há momentos em que sexo casa com amor. Você sabe a minha teoria. O amor é um estádio olímpico: tem muitas entradas e várias modalidades esportivas. Muitos encontros são feitos só de sexo, mas mesmo no sexo mais nu e cru, os amantes tornam-se cúmplices e surpreendem pela paciência. Há acelerações, pedidos e esperas. Isso não é amor? E o amor mais puro também não tem um fim, porque depois da exploração das grutas e torres vêm a calma da aurora e o canto dos pássaros confirmando que o milagre ocorreu justamente porque tudo passa e, passando, pode renovar-se? Eu, bêbado que estava, fiquei com os olhos cheios de lágrimas quando falei essas coisas. Pode?

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