sexta-feira, 2 de abril de 2010

Eau de quelque chose

Lúcia Guimarães - O Estadao de S.Paulo

NOVA YORK
O convite veio por e-mail, com o charme a gentileza habitual da remetente. Uma amiga que acaba de se mudar para a minha vizinhança com o namorado resolveu fazer um jantar para apresentar "pessoas interessantes". Como o relacionamento era recente, só havia encontrado o tal namorado uma vez, na rua. Ele me pareceu muito educado. O jantar era às 19 horas numa segunda-feira gelada. Ou seja, os convidados provavelmente teriam ir diretamente de seus locais de trabalho.
Ao sair do elevador, fui recebida pela anfitriã com uma expressão meio constrangida. Havia pares de sapatos amontoados à porta. Ela se desculpou: "Querida, o fulano (o namorado) tem essa história de tirar o sapato para entrar em casa, é problema para você?" "Não, se não ele não tem problema com as consequências", disparei. Na verdade, tinha acabado de tomar banho, minhas meias eram novinhas e costumo jogar fora meias furadas, já que parei de cerzi-las depois que os chineses passaram a fabricar pares de 1 dólar.
Entrei no apartamento pela primeira vez e meu queixo caiu. Minha amiga frugal, produto da contracultura esquerdista parisiense, havia omitido, por algum sentimento de culpa não digerido, certos detalhes da vida nova com o parceiro.
Um móbile de Alexander Calder pendia sobre um piano de cauda Steinway. Virei para a direita e dei de cara com um óleo de Milton Avery. À esquerda, meu olhar estupefato foi saudado por dois Vlamincks. A vista para o Rio Hudson era espetacular. O critério da seleção nas paredes e prateleiras confirmava o acúmulo da coleção por uma família, ao longo de seis décadas, e não por um hedge funder deslumbrado com o bônus de fim de ano.
Um punhado de estranhos se levantou, psicologicamente desnudado pela perda dos sapatos, vários "muito prazer" cruzaram o ar e nos sentamos. O cheiro de pés suados, que, selados por botas de neve, haviam passado por inúmeros ambientes aquecidos durante as dez horas anteriores, encheu o ar.
Chulé e arte moderna, conte com Manhattan para produzir esta combinação.
A anfitriã explicou que o jantar seria kosher, por exigência de um dos convidados, um ortodoxo. Um trocadilho me passou perigosamente pela cabeça e desisti, é claro, de explicar que meu ortodoxo ateísmo me impede de excluir qualquer alimento da minha dieta.
Sentamos à mesa arranjada com toda elegância. Antes mesmo de terminar a entrada, o judeu ortodoxo revelou que seu namorado, sentado à minha frente, havia sido excluído da foto da família. Excuse me? E o namorado contou como tinha reagido à rejeição. Meu disco rígido mental apagou os detalhes imediatamente. Em seguida, alguém perguntou ao casal gay se homossexualismo é inevitável ou uma escolha. Excuse me? O acadêmico francês na ponta da mesa descreveu, com sotaque impenetrável, alguma tática para atrair uma mulher que estava paquerando. A antropóloga sul-africana ao lado dele contribuiu com alguma vivaz experiência autobiográfica e passei a especular se a Cruz Vermelha também resgataria refugiados num jantar.
"Limite-se a falar do tempo ou algo assim", instruiu Ray/Woody Allen à personagem da prima burra vivida pela sublime comediante Elaine May, em Os Trapaceiros. Tive ganas de dizer o mesmo aos comensais.
Teria eu escorregado, como a Alice de Lewis Carroll, para um país das maravilhas onde Wes Craven deu um golpe de Estado? Com o olhar fixo nas delicadas peças do móbile de Calder, torci para ser alçada para outra dimensão. Não esperava que um longo dia de trabalho terminasse em revelações psicossexuais de estranhos com ativas glândulas sudoríparas. E entendi que aquela noite não poderia se passar em São Paulo, Dublin, Roma ou Mumbai. Era uma noite americana do Norte. No sentido de que, no hospitaleiro Sul dos Estados Unidos, dificilmente alguém arrancaria estranhos de casa para impor sanções.
É raro encontrar em outra metrópole a mesma combinação do refinamento estético de um educado colecionador de arte com o primitivismo da hospitalidade e a torrente confessional de mau gosto.
Já não me choco mais quando recebo convites de pessoas que mal conheço e, antes que possa fazer a pergunta ritual desta cultura, "o que gostaria que eu trouxesse?", sou alistada numa tarefa: "traga vinho branco". Ou: "Você se encarrega dos queijos." Espere aí, não vivo num dormitório universitário, rachando uma pizza com cinco colegas. Porque sairia do conforto de casa para cumprir instruções de alguém que tomou a iniciativa de me receber? A diferença entre o gesto espontâneo e as ordens do sargento na caserna nem sempre é observada na convivência social nova-iorquina. Da próxima vez que chegar um convite suspeito, já tenho a resposta na ponta da língua. "Sábado, às 8? Muito obrigada, mas estou planejando passar no dentista para uma obturação." N

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