segunda-feira, 12 de abril de 2010

Os papéis sociais e suas obrigações - Roberto da Matta

07 de abril de 2010 | 0h 00
- O Estado de S.Paulo

Como é que atuamos no mundo? Neste mundo que não foi feito por nós e que vai continuar sem a nossa presença? A pergunta do nosso professor ressoava num ar denso, vazio de respostas, fazendo face apenas a um conjunto de caras sem expressão porque é o saber alguma coisa que nos torna vivos e expressivos.
O mestre, ele mesmo, do alto de sua sabedoria estudada, pois quem ensina prepara suas aulas e só os burros e os tomados pelo poder (uma forma inexcedível de estupidez) falam do que não sabem, respondeu: pelo conjunto de papéis sociais que a sociedade nos oferece e obriga a desempenhar. Trata-se, continuou ele, do velho "axioma de Shakespeare": o mundo é um palco e todos somos atores com uma hora de entrada e saída num drama desconhecido dentro do qual desempenhamos muitos papéis. No teatro, os atores sabem exatamente o que vai acontecer e o bom ator finge que não sabe. Na vida, não sabemos o que vai acontecer, mas fingimos que podemos aguentar o sofrimento que chega sem aviso.
Descobri, anos depois, que a fala do bardo de Stratford não era bem essa, mas o espírito da coisa estava na observação do mestre. Todos nós, em qualquer sociedade, somos sujeitos de papéis que pertencem a um sistema. Tal como ocorre com a língua que falamos e com os códigos de etiqueta que seguimos. O individualismo que engendrou a tal "teoria da prática" passa a impressão que podemos mudar o mundo mas, no fundo, atuamos dirigidos por um sistema que nos obriga a pensar e fazer dentro de uma gramática e um vocabulário. Criamos mas somos criaturas.
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Em 1912, George Bernard Shaw, escreveu a peça Pigmaleão. O drama original se baseia nas complexas relações entre o escultor Pigmaleão e sua criação, a estátua de Galateia. Ovídio o grande poeta latino, considerado o pai da poesia erótica, diz que Pigmaleão fez Galateia de marfim e, apaixonado pelo que tomava como a mulher ideal, apaixonou-se. O amor a sua criatura levou-lhe a implorar que Afrodite, a deusa do afeto, desse vida a Galateia no que foi atendido. Mas logo que começou a respirar, ela reclamou da barba de Pigmaleão. Ela a cortou e, no processo, feriu o rosto. As gotas de sangue que caíram no chão transformaram-se em rosas vermelhas que, desde então, são símbolos dos sacrifícios dos amores apaixonados. Bernard Shaw transformou Pigmaleão num professor de fonética e, zombando da hipocrisia inglesa e da nossa modernidade que presta mais atenção às aparências, transformou Galateia em Eliza, uma florista suja, ignorante e sem modos, numa duquesa, usando o traço mais inglês da vida britânica: um sotaque apropriado que ? eu próprio testemunhei isso ? permite distinguir um cara de Cambridge de um outro, de Oxford. Mas diferentemente da narrativa original, e do filme My Fair Lady, o Higgins de Shaw não se apaixona por sua criatura, fazendo com que Eliza tenha um destino marginal e infeliz, com sua aparência de duquesa implantada (e irremediavelmente deslocada) numa vendedora de flores rude e ignorante.
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No reino de Jambon, as coisas são mais fáceis. Os poderosos podem tudo, confunde-se mandonismo hierárquico com coalizão e isso faz com que o criador acredite que ele possui a essência do papel que ocupa. O personalismo que opera na raiz de todo autoritarismo, tem esse traço. Ele confunde o ator com o papel e imagina que os atores inventam os papéis quando eles apenas os ampliam. Ademais, quanto mais importante o papel, mais é requerido do ator. Donde o famoso "o exemplo vêm de cima" e o tenebroso dia seguinte, quando o sujeito é obrigado a passar o papel para outro ocupante, como manda a impessoalidade das normas democráticas. Como alguns têm alertado, o inimigo nos processos eleitorais é a confusão entre as normas impessoais que devem nortear os que são os juízes da competição, os chamados "donos do poder". Se eles não tiveram um mínimo de impessoalidade a democracia torna-se impossível. Nos períodos eleitorais, ou prevalece a consciência das obrigações dos papéis, ou o presidente acaba correndo o risco de transformar-se num Pigmaleão de segunda: num mero cabo eleitoral. E, como não se sabe o resultado da disputa, ele pode jogar no lixo uma presidência que muitos tomam como das mais importantes na história da República. Pagamos para ver onde está o bom senso que Montesquieu e Tocqueville remarcavam como essencial para as democracias. Bom sendo que nada mais é do que a consciência e o diálogo entre nós, atores, e os papéis que desempenhamos.

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