domingo, 2 de maio de 2010

Amigos da coluna - Roberto Damatta

Amigos da coluna
Roberto Damatta - O Estado de S.Paulo
Antes que comece a conhecida temporada de demonização - parte e parcela - disto que promete ser um cordialíssimo e honesto processo eleitoral, eu teço loas ao um velho e querido amigo, engarrafado no seu nobre e discreto silêncio.

Como tudo que é humano, a coluna não passa sem amigos. Sem eles, ela não teria como sustentar-se e consubstanciar-se. Sem laços afetivos não há o amparo dos verbos gostar, entregar, comungar, dar, retribuir, reconhecer e amar. O gostar e o querer prazeroso, irmãos do "amar em paz" que os poetas cantam como uma utopia, mas que é, de fato, mais fácil do que parece desde que haja busca e sensibilidade. Pois como canta revolucionariamente Frank Sinatra: "Nice and easy, does it every time!" - com jeitinho, suavidade e paciência, o "êxito" chega sempre!
Cada vértebra desta coluna é feita de um suspiro de carência, em cima de um outro de esperança. Sem coluna não há prédio (ou jornal, como diriam, sem hesitação, alguns jornalistas). Mas sem os amigos, meus amigos, não haveria coluna. Ou melhor, ela - como esses políticos de merda que permeiam o Brasil e pensam que podem passar por cima das leis - existiria, mas seria uma coluna sem capacidade para aguentar o peso do sofrimento e da frustração que faz parte das polaridades que marcam a existência humana: alto/baixo; dentro/fora; animais/homens; inteligência/burrice; frio/quente; desejo/saciedade (e, depois, saudade); coletivo/individual; meio/fim; amor/indiferença. E a mais dura e, sem dúvida, a mais reconhecida de todas: vida/morte e o seu duplo, nós/eles.

Mencionei os suspiros e alentos que fabricam uma coluna. Mas não disse quem são os seus fornecedores permanentes. Hoje, quero destacar um dos meus amigos mais constantes. Refiro-me ao ilibado escocês Johnnie Walker Black, um primo irmão do poeta, igualmente embriagador, William Blake. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.
Outro dia, falava desta amizade com outros amigos, o antropólogo Luiz Roberto Cardoso de Oliveira; o pesquisador e sociólogo Aberto Carlos Almeida; o cientista político Paulo Kramer; o poeta, jornalista e antropólogo Rodolfo Gutilla; aos meus colegas Valter Sinder e Eduardo Raposo. O Johnnie, dizia, tem a vantagem de ser sempre o que você quer que ele seja. Rara qualidade, pois se tivermos com ele um papo marcado pela moderação, afastamos o fantasma do confronto destrutivo ou da condescendência que torna os "nossos" heróicos e revolucionários; e o resto, reles pecadores e reacionários empedernidos. Ao procurá-lo, jamais deixei de encontrar uma santa paciência. Nisso ele é líquido e certo! Ouve como ninguém os segredos mais escabrosos e sabe ser espirituoso sem ser um chato espiritualista. Mas se você ultrapassa um certo limite, ele pode destruí-lo porque é embriagadoramente franco e honesto. Mas se for respeitado, sua presença é como a das gueixas e das mães: feito de uma ausência zelosa, pois Johnnie é sempre sutil quando diz alguma coisa. Pena, lembra uma querida amiga, que ele seja escocês e um tanto sovina. Mas não custa lembrar a raridade de um amigo que pode ser devidamente fechado ou aberto. Ademais, ninguém é mais igualitário e liberal do que esse mr. Walker.
Sua presença tem sido marcante na minha vida. Sem ele eu não teria tido a coragem de insultar aquele filho da p... que me ofendia com suas intrigas argentinas. Sem ele, não poderia ter passado aquela noite solitária na famosa Amsterdã, onde os p... têm mais regras do que o Brasil, com a diferença de que são todas cumpridas. Do mesmo modo que jamais teria sobrevivido às minhas noites de autógrafos que, felizmente, duram pouco.
Johnnie Walker me encoraja a cantar velhas baladas e a olhar o mundo com otimismo. O que seria de mim sem ele para me aconselhar? E, mais que isso, para ouvir a mim mesmo? Sem ele - confesso - eu não encontraria o tema da coluna. Sua generosidade espiritual é tamanha que ele jamais me criticou ou corrigiu. Pelo contrário, ele aprova o que escrevo com aquele toque de amorosa recepção que é tão importante na arte de escrever. Esse labor que requer covardia e coragem simultaneamente. Por isso, eu o solicito todo sábado e domingo quando escrevo a coluna que vai ficando melhor, quanto mais eu falo com ele...
Tudo - toda a minha mediocridade e todo o meu ressentimento; toda a minha dor e toda a minha frustração dissolvem-se na sua inefável liquidez de feitio dourado. A coluna, meus amigos, pode não estar gostosa ou brilhante, mas o Johnnie Walker Black permanece dialogando com o solitário escritor que não cansa de tentar.

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