domingo, 16 de maio de 2010

Diálogo de surdos - Lúcia Guimarães

03 de maio de 2010 | 0h 00-

O Estado de S.Paulo
NOVA YORK


Imagine se alguém aparecesse no velório do seu pai e fizesse, em voz alta, o seguinte comentário: "É bom enterrar o corpo numa cova escondida para evitar os que vão querer defecar no túmulo." O autor ou autora do insulto seria calado imediatamente. Pois esse comentário foi feito com impunidade por um leitor, em agosto, logo após a morte de Ted Kennedy, um dos mais admirados políticos americanos das últimas décadas. As seções de comentários online dos jornais americanos se transformaram num tal faroeste, que várias empresas começam a planejar mudanças.
O New York Times manifestou-se numa reportagem recente sobre o anonimato dos leitores, uma possível origem da baixaria. O Wall Street Journal já oferece alternativa para se ler só os comentários escritos por assinantes do jornal, uma suposta peneira para excluir lunáticos e desocupados. O Washington Post estuda um sistema hierárquico, em que autores de comentários serão julgados com base no comportamento anterior e os leitores vão ajudar a selecionar os "melhores".
O ombudsman do Post admitiu que os jornais sofrem a pressão financeira para construir uma base online. Mas lembrou que a falta de civilidade levou um entrevistado recente do jornal a dizer que não teria falado com o repórter, se soubesse que ia ser submetido a tanta violência verbal. Andrew Sullivan, um dos primeiros blogueiros americanos bem-sucedidos, simplesmente não aceita comentários em seu The Daily Dish.
Minha primeira experiência como recipiente de correspondência online começou há mais de dez anos, na TV a cabo, e incluía insultos habituais. Fazia questão de responder cada e-mail, com exceção dos que incluíam palavrões ou ataques pessoais. Na maioria das vezes, a tréplica do espectador zangado vinha contrita. Alguns perguntavam, "é você mesma? Achei que receberia uma resposta automática". Outros, ao ler a cópia da própria intemperança, ficavam encabulados, pediam desculpas ou simplesmente voltavam atrás num argumento.
Em março de 2008, o jornalista e autor Lee Siegel contou, numa entrevista a este jornal, relatou sua breve experiência ao tentar fazer justiça com as próprias mãos na revista The New Republic. Cansado de ser xingado por leitores, Siegel, conhecido por suas opiniões impermeáveis a modismos, criou uma outra identidade e defendeu suas ideias na contínua briga de bar dos comentários. Foi suspenso pelo editor. E continua de olho roxo. Hoje é xingado pelos leitores de seus ensaios sobre cultura e política americana no The Daily Beast.
O anonimato das seções de comentários é um combustível, mas não explica a baixaria vigente. As empresas de mídia, a meu ver, são responsáveis pelo problema. Eu não convidaria 50 estranhos para visitar meu apartamento, na minha ausência. Foi isso que executivos fizeram ao disparar o software e virar as costas. No século passado, as cartas à redação eram selecionadas por jornalistas, editadas e as alegações do conteúdo verificadas para evitar processos.
A internet, diz o jornalista Jeff Jarvis, não é um meio e sim um espaço, um lugar onde há encontros e todo tipo de transação. Ele pergunta: se você passar por uma rua de Nova York e ouvir alguém soltar um palavrão, vai dizer que a cidade toda é rude?
Quem pode escolher entre ir a um bar onde há bêbados brigando e outro, onde há tranquilidade para conversar, não vai frequentar o primeiro. O tom grosseiro ou pueril da conversa aliena os leitores que têm contribuição a dar e falsifica a interatividade. Faça o teste em sites americanos de jornalismo. Qualquer artigo não controvertido, seja ele sobre economia ou cultura, serve de ponto de partida. Alguém comenta com agressividade, outro vem e ataca quem comentou, um terceiro mete a colher e as empresas de mídia oferecem território grátis para um bate-boca exibicionista que empobrece a cobertura na qual investiram.
Os excessos têm sido enfrentados com a exclusão pura e simples de comentários inflamados, links para denunciar abusos e pedidos de registro nos sites. Mas o debate sobre anonimato e novos controles ignora o erro inicial, o populismo equivocado.
Continuo a celebrar a derrubada de hierarquias permitida pelo jornalismo online e a revolução de interatividade. Não se espera assepsia na democracia da informação. Fico feliz quando recebo e-mails civilizados, inclusive críticas severas que me desafiam a reexaminar o que escrevi. Todos ganham nesta troca.
Um dos fundadores da Salon fez o que considero o melhor argumento recente sobre o dilema. Scott Rosenberg questionou a sinceridade de editores ao abrir espaço para comentários. A motivação pode ter sido aumentar o tráfego, o número de cliques de anúncios, mas não ancorar um diálogo. Quer que os leitores se manifestem, ele perguntou? Então converse com eles. Rosenberg enumera boas experiências de comentários de leitores em curso nos sites americanos. Todas são monitoradas e mediadas pelas redações.

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