sábado, 21 de agosto de 2010

Stephen Kanitz

Longevidade Não é Doença: Uma Estratégia Para o Seguro Saúde


Os custos médicos e de saúde estão aumentando assustadoramente no mundo todo. Nos Estados Unidos crescem 15% ao ano e já correspondem a 15% do produto interno bruto (PIB). Um dia, a porcentagem será a mesma no Brasil.
Isso não significa que os médicos ganharão mais com este crescimento. Médicos que já recebem mal receberão cada vez menos e terão problemas cada vez mais difíceis em suas mãos para resolver.
Os honorários médicos representam cada vez mais uma parcela menor do custo de medicina. O grosso dos dispêndios vai para hospitais, medicamentos, exames clínicos, serviços de enfermagens e seguros contra erros médicos. Culpar as empresas de seguro-saúde ou o governo por essa situação é não entender corretamente o problema.
E por não entender o problema, a maioria das medidas tem sido no sentido de manter uma constante pressão para redução de custos, o que só piora a situação. NINGUÉM está ganhando dinheiro nesta área crítica para o futuro da humanidade, diferentemente do que os muitos formadores de opinião acreditam. O cerne do problema é o conceito de seguro-saúde.
Seguro-saúde, seja governamental ou privado, não tem o mesmo sentido de antigamente, com os contínuos avanços da medicina. Antes, a maioria das doenças era incurável, por isso 50% dos custos médicos eram gastos nos últimos dois anos de vida, que era para custear a grande "encrenca" final e incurável. Na época, seguro-saúde significava poupar ao longo da vida para poder pagar pela doença.
Os avanços na medicina mudaram essa lógica do seguro-saúde. Hoje, 80% de toda a população conseguem safar-se das chamadas doenças sérias, caras e de longo tratamento como as oncológicas e as cardíacas. Ou seja, não haverá seguro-saúde que aguentará sucessivas doenças sérias e caras, mas que agora salvam o cliente/paciente. O famoso cálculo atuarial, onde todos pagam pelos tratamentos caríssimos de alguns, não vale mais. Todos nós teremos eventualmente um tratamento desse porte.
O problema que as empresas de seguro hoje em dia enfrentam, é que longevidade não é uma doença. A deterioração natural do corpo humano não é uma enfermidade passível de seguro, nem curável.
E quando se trata de postergar essa deterioração não estamos mais comprando saúde, e sim longevidade.
Longevidade e seguro-saúde são dois conceitos diferentes, e as empresas de seguro-saúde não serão obrigadas no futuro a nos garantir longevidade; algo que vem ocorrendo hoje.
Não estou sugerindo o fim do setor de seguro-saúde, mas, sim, alertando o consumidor e segurado que existe um novo componente na equação que não está sendo contemplado. Ou seja, a distinção entre garantir saúde para todo mundo e garantir longevidade para todos.
Na questão de longevidade, os gastos médicos são infinitos, diferentemente das doenças que são finitas e até há pouco tempo calculáveis por técnicas atuariais.
Quem quiser viver até os 80 anos simplesmente terá de pagar os exames preventivos necessários, tomar os remédios adequados e arcar com os gastos decorrentes. Nada mal nesse conceito, contanto que todos tenham sido corretamente avisados, permitindo uma poupança para a saúde adequada. Quem quiser viver até os 90 anos provavelmente terá de poupar mais nos anos produtivos, digamos em torno de R$ 150.000,00.
Decidir quanto dinheiro você está disposto a gastar para aumentar sua própria vida não é mais uma decisão de saúde nem uma questão médica, é uma questão financeira: o quanto você quer gastar do seu patrimônio ou do patrimônio social da coletividade para continuar vivo.
Infelizmente, ou felizmente, o Estado não pode nem tem os recursos para cuidar da longevidade de todos ao limite máximo que todos nós desejaríamos. Quem terá que decidir isso é você e sua família, não o Ministério da Saúde ou o plano de saúde.
Várias pessoas, preocupadas com a situação, já discutiram com seus médicos um limite fixo nesses gastos, para não comprometer as finanças da família num coma prolongado, por exemplo. Curiosamente, nem temos legislação que permita fazer isso.
No fundo precisamos definir bem claramente nos contratos de seguro-saúde o que é de fato saúde e o que é de fato compra de longevidade. Não é uma tarefa simples, mas também não é algo que possamos deixar de lado.
Se o governo não definir essa questão terá diante de si uma classe média que exigirá esses direitos adquiridos ilimitados, bem como teremos dezenas de companhias de seguro falidas sem condições de honrá-los.
Precisamos evitar os erros que outros países já cometeram, como nos Estados Unidos, que têm um Medical care com passivo superior a 20 trilhões de dólares, que a nova geração terá de pagar, e que a nova geração da Grécia já está rebelando-se para não pagar, e com razão.
Isso será uma mudança brutal de concepção e de expectativa em termos de saúde que exigirá uma enorme campanha educacional, e uma enorme mudança cultural em que clientes e pacientes terão de se conscientizar de que não poderão esperar que tenham assistência médica para combater a natural deterioração do corpo humano. Saúde é um direito constitucional, mas a longevidade não é. Longevidade é uma obrigação, não um direito.
Quando um consumidor compra uma viagem para a Disney, será que ele está sabendo que aquele dinheiro poderia lhe comprar cinco anos de vida? Ninguém nos avisou, e por quê?
Se deixarmos claro que degeneração do corpo é um problema caríssimo de se resolver, a população terá mais preocupação médica, com mais respeito aos problemas como fumo, sedentarismo e obesidade que contribuem no processo de degeneração.
Caso contrário, teremos uma conta impagável, ou pior, teremos empresários ou governos decidindo quem vai viver e quem vai morrer. Algo inadmissível numa democracia e num estado de direito.


Publicado na Revista CHYMION número 7 / 2010

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