domingo, 13 de fevereiro de 2011

Aronofsky (apócrifo)

Entendo o sucesso do diretor. Réquiem para um sonho, O lutador e Cisne Negro (os três que eu vi) são jujubas disfarçadas de trufas. A mistura da beleza da fotografia com a aflição da dor física (a veia aberta no braço do drogado, o lutador metendo o dedo na máquina de fatiar salame, Natalie Portman quebrando unhas, arrancando a pele) dão ao público, enquanto assiste a um filme de Sessão da Tarde, a ilusão de estar diante da Grande Arte. Pelo menos, da visão que Aronofsky tem da Grande Arte: a entrega total (ohhh!), a viagem ao desconhecido (ahhhh!), o mergulho nos infernos (uhhhhh!).

É claro que, muitas vezes, a arte tem mesmo – embora não necessariamente -- esse lado “quem quer passar além do Bojador, tem que passar além da dor”. Mas não é o que vemos nas jujubas de Aronofsky. Submeter o público ao dedo no fatiador de salames, ou ver Natalie Portman arrancar um bife de seu indicador, não são mergulhos profundos na psiché, são efeitos fáceis de parque de diversões: montanha russa, trem fantasma. E aí está o pulo do gato do diretor, a razão de seu sucesso. Ele oferece ao público médio a diversão do Playcenter com a chancela de Cannes e Berlim. Você recebe a pipoca básica de Hollywood, mas pode comentar depois, com grande deleite, entre os amigos: “que filmão! Que experiência profunda!”.

Pois falemos, então, da última experiência profunda: o Cisne Negro. Nina, a bailarina, tem que conseguir esquecer a técnica e “sentir”, “libertar-se” e deixar seu “eu profundo” dançar. Puxa, que sacada! Mas, ué, não é muito parecido com a trajetória de Daniel San, em Karatê Kid, Luke Skywalker, em Guerra nas Estrelas, Van Damme lutando com areia nos olhos, em O grande dragão branco, e mais um zilhão de filmes americanos? É. A diferença é que o filme de Aronofsky trata de balé, coisa muito fina, e tem aquelas cores lindas, e uma hora ou outra até rola sexo oral, então, vamos levá-lo a sério.

Se Daniel San fica polindo carros e pintando cercas, para aprender a deixar o movimento fluir, e Luke duela com o próprio pai, para resolver suas questões edípicas e encontrar “A Força”, Nina deve olhar nos olhos de seu lado negro. Para isso, entrega-se a uma sequência de depravações. E quais são essas depravações? Ela se masturba. Uau! Ela joga todos os bichinhos de pelúcia no lixo! Que horror! Ela chega a fazer sexo no banheiro de uma boate! Ela tem até fantasias homossexuais. Putz! Convenhamos, é uma depravação de sétima ou oitava série.

Mas Aronofsky não para por aí. Ele é picareta em vários aspectos. Como o filme trata do encontro das duas metades, o apolíneo e o dionisíaco, anima a animus, yin yang, goiabada e queijo minas, o diretor usa e abusa dos duplos. E dá-lhe a branquinha oposta à moreninha. Dá-lhe reflexo no espelho. Dá-lhe o rosto dividido atrás de um objeto. Os símbolos caminham pela tela, óbvios e ululantes. Às vezes, dá até vontade de dizer: olha ali, uma metáfora, atrás da cama! Você viu?

A grande arte é aquela que nos revela facetas ocultas em nós mesmos. Ela entra na gente e vai buscar, lá no fundo, o que não sabíamos que existia. Os filmes de Aronofsky, rasos, pretensiosos e moralistas, fazem o contrário. Insistem, o tempo todo, em sua profundidade, enquanto reiteram velhos clichês, entre unhas quebradas e siriricas. Bom, pelo menos tem as siriricas: em se tratando de Natalie Portman, não é pouca coisa.

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