domingo, 13 de fevereiro de 2011

Com 'nacionalização', PT tem votação que é retrato fiel do eleitorado brasileiro

Partido, que comemora mais de 3 décadas de existência nesta semana, vive transformação geográfica e social, deixando de ter representação concentrada no Sudeste e expandindo-se para outras regiões, sobretudo o Nordeste

07 de fevereiro de 2011 | 11h 24
Daniel Bramatti, de O Estado de S.Paul

SÃO PAULO - Ao completar 31 anos, o PT passa pelo ápice de um lento e gradual processo de "despaulistização" (afastamento do eixo São Paulo) que vem desde a década de 80. Sua votação para a Câmara dos Deputados em 2010 espelhou de forma quase exata a distribuição do eleitorado brasileiro pelas diferentes regiões.

Dados eleitorais, pesquisas de opinião e estudos acadêmicos demonstram que essa descentralização geográfica coincidiu com uma marcha rumo ao centro e uma transformação de base social. Assim como o PT, nas últimas três décadas os simpatizantes do partido se tornaram mais moderados e se interiorizaram. Diferentemente do PT, eles ficaram mais pobres.

Em 1982, na primeira eleição para a Câmara que o partido disputou, nada menos que 89% de seus votos se concentravam na Região Sudeste. No Nordeste, Norte e Centro-Oeste estavam apenas 4%, 2% e 1% dos eleitores petistas, respectivamente. Essa distorção foi caindo a cada quatro anos até que, em 2010, o resultado foi de 42% no Sudeste, 26% no Nordeste, 17% no Sul, 8% no Centro-Oeste e 7% no Norte - com uma margem de erro máxima de dois pontos, esses porcentuais são um retrato fiel da distribuição dos eleitores pelo País.

Ainda que com certas limitações, as eleições legislativas retratam de forma mais precisa a fidelidade dos eleitores aos partidos, já que as disputas presidenciais são centradas em personalidades.

Efeito Lula. A descentralização geográfica do eleitorado petista, marcadamente paulista nos anos 80, é um fenômeno até certo ponto previsível, segundo o cientista político Jairo Nicolau, especializado na análise de dados eleitorais. Ele observa, porém, que a tendência se intensificou a partir da chegada de Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência, em 2003.

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Até 2002, a maioria absoluta dos eleitores petistas para a Câmara (52%) ainda se concentrava no Sudeste. Nas duas eleições seguintes, esse índice caiu para 46% e 42%, respectivamente. No Nordeste, a trajetória foi de crescimento: 18% em 2002, 24% em 2006 e 26% em 2010. No Norte, os índices foram de 4%, 6% e 8%.

Com Lula no poder, o fortalecimento do PT se deu nos Estados onde foi maior o impacto das políticas sociais do governo - das quais o carro-chefe é o programa Bolsa-Família.

Esse eleitorado dependente de benefícios oficiais, disperso e não organizado tem perfil muito diferente dos militantes que impulsionaram o partido em suas origens - sindicalistas, estudantes, intelectuais e religiosos da chamada ala "progressista" da Igreja Católica.

"Para compreender mudanças e continuidade na evolução do petismo, deve-se prestar especial atenção à expansão geográfica do partido", afirmam os cientistas políticos David Samuels, da Universidade de Minnesota, e Cesar Zucco, da Universidade Princeton, no estudo As Raízes do Petismo, 1989-2010. "As regiões brasileiras têm grandes desigualdades socioeconômicas. Por isso, a expansão eleitoral de um partido para novas áreas pode causar mudanças no perfil de seus simpatizantes mesmo sem que ocorra um grande realinhamento socioeconômico."

Jairo Nicolau observa que a expansão nacional do PT coincide com ação planejada dos líderes da legenda. "Após a vitória de Lula houve uma deliberação para organizar o partido nas cidades onde não conseguia entrar." Essa interiorização, para o cientista político, foi acelerada pela distribuição de benesses oficiais, pela cooptação de outras legendas e pelo próprio carisma de Lula entre os eleitores mais pobres.

A trajetória do PT revela um comportamento diferenciado dos eleitores do Sul. Lá, a proporção dos votos petistas para a Câmara não caiu nem cresceu, como no Sudeste e no Nordeste, mas oscilou. O ápice (22%) ocorreu em 1998, no governo Fernando Henrique Cardoso, quando o petista Olívio Dutra foi eleito governador do RS.

"O Sul experimentou o PT primeiro e depois recuou", observa Marcia Cavallari, diretora executiva do Ibope.



Simpatias mudaram, mas sigla não virou 'partido dos pobres'

Estudo mostra que PT perdeu apoio entre ricos, mas ainda tem mais simpatizantes da classe média do que da baixa

07 de fevereiro de 2011 | 0h 00


Daniel Bramatti - O Estado de S.Paulo

Após conquistar a Presidência da República, o PT se expandiu para áreas menos desenvolvidas e conquistou simpatizantes nas camadas mais baixas da pirâmide social, mas não há evidências de que tenha se transformado no "partido dos pobres". A conclusão é do estudo Raízes do Petismo, 1989-2010, dos cientistas políticos David Samuels e Cesar Zucco.

Ao tabular dados estatísticos de diversas pesquisas de opinião sobre preferência partidária e orientação ideológica, os pesquisadores constataram que, nas primeiras duas décadas de existência do PT, havia uma correlação direta entre renda e simpatia pelo partido. Quanto mais ricos e educados os eleitores, maior a probabilidade de que eles se identificassem como petistas.

A partir de 2007, essa correlação passou a ser negativa: quanto mais alta a faixa de renda, menor o índice de apoio ao PT.

Isso não significa que o partido foi "abraçado" pelos pobres. O estudo constatou taxas similares de "petismo" nas classes baixas e médias e uma exceção entre os mais ricos. "Só na faixa dos que ganham mais de dez salários mínimos o apoio ao PT teve queda significativa."

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Mesmo nos Estados considerados periféricos, há mais pessoas identificadas com o PT na classe média do que entre os mais pobres, afirmam os autores. "O PT não está se tornando o partido dos mais pobres nas regiões mais pobres. Tanto nos Estados centrais como da periferia, o petismo é mais presente em cidades com Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) mais alto."

Samuels e Zucco destacam que é preciso distinguir preferência pelo PT e simpatia por Lula. "Na origem (do partido), os petistas eram mais educados e mais ricos do que a média dos brasileiros, mas essas variáveis não indicam mais predisposição de identificação com o PT. Petistas são encontrados em todos os níveis de renda e educação. Apesar de o fato sugerir que o petismo não representa interesses de classes, isso também deixa claras as diferenças entre petismo e lulismo. Lulismo é um fenômeno populista - um sentido de solidariedade e gratidão em relação a Lula que é mais forte entre os mais pobres. O petismo não é mais forte entre os pobres do que em outras camadas sociais, mas tampouco é mais fraco."

As pesquisas analisadas pelos cientistas políticos também permitem avaliar as mudanças do perfil ideológico do petista médio. "A diferença mais óbvia entre o petismo de hoje e o dos primeiros anos é o declínio da importância da ideologia de esquerda." É a partir de 2002 que a probabilidade de um petista se identificar como "de esquerda" passa a cair. "Isso sugere que a moderação da elite do partido se reflete em sua base de apoio."


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