sábado, 26 de março de 2011

ANTONIO PRATA



Um muro agradabilíssimo


Ao fazer uma declaração de amor, é difícil escapar do lugar comum, encontrar um elogio que não esteja puído




"JULIA FUSCO é uma moça agradabilíssima". Quem o afirma não sou eu, que nem conheço Julia Fusco, mas o grafite no muro de um terreno baldio, na Vila Madalena. A frase sai do bico de uma ave simpática e desengonçada, uma mistura de pinguim com tucano, que bem poderia ser um personagem do "Yellow Submarine".
Uma vez por semana, pelo menos, passo diante do muro e fico pensando: quem será o autor desta peculiar declaração de amor? O que terá a tal Julia Fusco achado da homenagem? Será que, assim que bateu os olhos no grafite, ligou para o artista, disse que estava comovida e saíram pra tomar uns chopes? Estarão os dois juntos, agora, numa relação "agradabilíssima"?
"Agradabilíssima": gosto muito do adjetivo escolhido. Ao fazer uma declaração de amor, é difícil escapar do lugar comum, encontrar um elogio que não esteja puído e esgarçado pelo uso constante dos amantes que vieram antes de nós: "maravilhosa", "incrível", "deslumbrante", "linda", "belíssima", "esfuziante"... Aí, o tucano-pinguim da Vila Madalena me vem com essa palavra fresca, limpa e cheirosa, como a mulher amada saindo do banho, pela manhã: "agradabilíssima".
Tão bom quanto o adjetivo é o porta-voz criado para a declaração, essa ave desajeitada. Veja, o autor do grafite poderia ter pintado uma imponente arara, um tucano de garbosa plumagem, ou mesmo sair do terreno avícola e desenhar um senhor de fraque e cartola, o Superman, Deus, até, apontando seu dedo para a Terra e revelando à humanidade que "Julia Fusco é uma moça agradabilíssima". O grafiteiro apaixonado, contudo, apelou para o humor, e terá por isso minha eterna admiração.
É preciso coragem. As mulheres sempre dizem que gostam de homens que as façam rir: tá certo, mas se ficarmos muito engraçados, acabamos perdendo a graça e elas vão embora da festa nos braços de outro homem, não sob a asa de um pinguim desengonçado -mesmo sendo essa a imagem mais perfeita de um ser apaixonado.
Pensando bem, talvez haja algo além de coragem na escolha do adjetivo e na ousadia da ave. Intimidade? Não sei, mas sinto que essa não é uma declaração de primeira viagem. Imagino o grafiteiro saindo da casa de Julia Fusco, de madrugada, após a primeira noite dos dois e, a caminho do metrô, sacando os sprays de sua mochila -grafiteiros previdentes sempre levam as tintas consigo, afinal, nunca sabem se vão topar com o grande amor ou, pelo menos, com um muro de bom tamanho. Vejo-o ali, no lusco-fusco, entre os últimos a voltar da balada e os primeiros a irem ao trabalho, deixando seu recado, tímido e espalhafatoso, sobre os tijolos de concreto. Isso tudo, claro, são conjecturas: como disse, não conheço Julia Fusco. Talvez a encontre em breve, caso ela resolva me processar pelo transtorno causado por esta crônica. Peço desculpas desde já, minha cara, mas não se incomode: algumas tias irão telefonar, o pessoal comentará no trabalho, mas depois passa, amanhã mesmo esta página já estará embrulhando peixe ou forrando gaiola de passarinho. O muro, contudo, continuará lá, para nossa sorte: um muro que era cinza e sem graça, mas que você e o grafiteiro apaixonado deixaram -se me permitem o uso do termo- agradabilíssimo.

antonioprata.folha@uol.com.br

@antonioprata

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